“Eu nunca fui esquerdista”, diz Lula no G7 (vídeo)

17/06/26  – http://blogfolhadosertao.com.br  –

Em conversa gravada na França, presidente afirma que “o mundo é do caminho do meio” e relembra trajetória sindical
Luiz Inácio Lula da Silva
Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
 O presidente Lula (PT) afirmou nesta quarta-feira (17), em Évian, na França, que “nunca” foi esquerdista, durante diálogo gravado à margem da segunda reunião de cúpula do G7, onde participa como convidado. Em conversa com o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, e com a chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, Lula disse que “o mundo é do caminho do meio”.

O registro em vídeo mostra Lula comentando a alternância de poder em diferentes países e defendendo que governos de esquerda tiveram, historicamente, menos tempo no comando em algumas das principais democracias ocidentais.

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“Nos Estados Unidos, os republicanos ficaram mais no governo do que os democratas. Na França, os socialistas também ficaram bem menos tempo governando. Ou seja, o que isso prova? Que o mundo não é de esquerda. O mundo é do caminho do meio. Essa é a verdade”, afirmou Lula.

Na sequência, Kristalina Georgieva lembrou a percepção internacional sobre Lula em seu primeiro mandato como presidente do Brasil. “Quando você foi presidente pela primeira vez, todos esperavam que você fosse um esquerdista, mas você não foi”, disse a chefe do FMI.

Lula respondeu de forma direta: “Mas eu nunca fui esquerdista”.

Georgieva acrescentou: “Mas essa era a imagem na época”.

O presidente, então, relacionou sua trajetória política à atuação no movimento sindical e citou suas conexões com entidades trabalhistas europeias. “Eu era um dirigente sindical — com uma belíssima relação com o sindicalismo alemão, tinha uma relação boa com o sindicalismo italiano, uma relação boa com a UGT da Espanha. Eu nunca fui — em 1980, tinha um congresso na Rússia que eu fui convidado. E eu não fui na Rússia porque fui condenado pela Lei de Segurança Nacional. Eu fiz uma viagem pela Europa angariando solidariedade, e aí eu passei a ser tratado como anticomunista”, afirmou Lula.

A conversa ocorreu durante a participação de Lula na cúpula do G7, que reúne líderes de algumas das principais economias do mundo e conta com a presença de convidados internacionais.

Lula e Trump se cumprimentam em evento do G7 na França

17/06/26 –  http://blogfolhadosertao.com.br –  Por Guilherme Lavorato

Cumprimento entre Lula e Trump ocorreu após concerto organizado por Emmanuel Macron

 

Presidente Lula durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington
Presidente Lula durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Os presidentes Lula (PT) e Donald Trump se cumprimentaram na noite de terça-feira (16), durante um evento social da cúpula do G7, realizado em Évian-les-Bains, na França. O encontro informal ocorreu após um concerto promovido pelo presidente francês, Emmanuel Macron, no hotel que recebe a reunião dos líderes internacionais, relata o Metrópoles.

De acordo com assessores de Lula, o cumprimento entre o presidente brasileiro e o presidente dos Estados Unidos não foi registrado em foto ou vídeo. Depois do concerto, os dois seguiram para um jantar de gala oferecido por Macron aos participantes da cúpula.

Mais cedo, durante a tradicional “foto de família” dos líderes presentes ao encontro do G7, Lula e Trump chegaram a passar próximos um do outro, mas não houve interação naquele momento. A aproximação ocorreu apenas mais tarde, no evento social organizado pela Presidência francesa.

Integrantes do Palácio do Planalto afirmaram que não houve pedido formal para uma reunião bilateral entre Lula e Trump, nem por parte do governo brasileiro, nem por parte dos Estados Unidos. A avaliação no entorno do presidente é que uma nova conversa formal entre os dois líderes não teria, neste momento, razão prática.

STF condena Eduardo Bolsonaro a 4 anos e 2 meses de prisão por coação em processo sobre trama golpista

17/06/26 –  http://blogfolhadosertao.com.br  –  Por Luiz Felipe BarbiériMárcio Falcão, g1 e TV Globo — Brasília

STF condena Eduardo Bolsonaro por coação em processo sobre trama golpista

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou nesta terça-feira (16) o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL) por tentativa de interferir no julgamento do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), na trama golpista.

Eduardo Bolsonaro foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão. A pena deverá começar a ser cumprida em regime semiaberto. Também ficará inelegíve por 12 anos, sem poder ser eleito até 2038.

O ministro Alexandre de Moraes, relator do processo na Primeira Turma do STF, votou pela condenação e foi acompanhado pelos ministros Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino, que é o presidente da Primeira Turma.

Moraes entendeu que há elementos que comprovam que Eduardo Bolsonaro praticou o crime de coação no curso do processo, como acusou a Procuradoria Geral da República (PGR).

Eduardo Bolsonaro é acusado de promover junto ao governo Donald Trump, dos Estados Unidos, ações para criar um clima de instabilidade e temor, ameaçando e projetando retaliações estrangeiras contra ministros do STF e o Brasil.

Eduardo foi denunciado pela Procuradoria-geral da Pública e virou réu no STF. O objetivo das ações do deputado cassado no exterior, segundo a Procuradoria, era tentar impedir que o ex-presidente Jair Bolsonaro fosse condenado na chamada trama golpista. Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão e cumpre prisão domiciliar.

O ministro relator rebateu uma preliminar da defesa de Eduardo que alegava que ele estava protegido pela liberdade de expressão e pela imunidade parlamentar.

“Não é função de deputado federal brasileiro fazer lobby no exterior contra o próprio país. Mesmo que estivesse no exercício do mandato e não licenciado, mesmo que estivesse no exercício, não estaria acobertado pela imunidade parlamentar”, afirmou.

Moraes afirmou ainda que o próprio Eduardo disse que não comunicou mudança de domicílio para os EUA e que estava no exterior para fugir da Justiça.

“Até hoje em momento algum nem o próprio réu em qualquer lugar disse que mudou seu domicílio. Ele só disse que não volta para o Brasil por medo de responder pelos crimes que praticou. Pode o réu, qualquer réu, se beneficiar da própria torpeza”.

“O processo penal não é palhaçada, a aplicação da justiça não é palhaçada. As normas existem para garantir o contraditório, a ampla defesa, dentro da paridade de armas, não para que fraudes e crimes praticados continuem se perpetuando”.

Moraes destacou que Eduardo focou em ameaças com a pretensão de que seu pai não fosse condenado e que o STF não realizasse o julgamento da trama golpista.

“Nenhuma relação com atividade parlamentar, mas ameaças pretendendo com isso que seu pai não fosse condenado”, afirmou.

O ministro Cristiano Zanin seguiu na íntegra o voto de Moraes e afirmou que as condutas de Eduardo Bolsonaro apuradas na investigação “evidenciam de forma clara o crime de coação no curso do processo”.

“Essas publicações, manifestações, que duraram de janeiro a setembro de 2025, comprovam autoria e materialidade com esse intuito de coagir a atuação do STF na condução da ação penal 2668”, afirmou Zanin.

“Houve sucessão de atos que comprovam um percurso criminoso para coagir os julgadores”, afirmou Cármen Lúcia.

Acusação

O objetivo de Eduardo, segundo a PGR, era tentar impedir que o ex-presidente Jair Bolsonaro fosse condenado na chamada trama golpista.

A procuradoria argumentou que as provas reunidas ao longo do processo confirmavam a conduta criminosa, sendo que o objetivo sempre foi o de sobrepor os interesses da família Bolsonaro às normas do devido processo legal e do bom ordenamento da Justiça para livrar o pai da responsabilização criminal.

A Procuradoria listou uma série de declarações de Eduardo, em entrevistas e em postagens em redes sociais, além de trocas de mensagens com Jair Bolsonaro que revelam articulações nos Estados Unidos para constranger a cúpula do Judiciário.

O subprocurador-geral da República Antônio Edílio Magalhães apresentou em sua manifestação uma série de publicações e mensagens trocadas entre Eduardo e seu pai para sustentar o pedido de condenação.

“Essa é uma situação relativamente simples do ponto de vista penal. Há todo um elemento, um contexto fático e conjunto de provas evidenciando que essa coação efetivamente existiu”, afirmou.

“Quando se fala em defesa das instituições, fala-se em defesa, inclusive da cidadania, em defesa de todos. Então, a posição da Procuradoria Geral da República que é uma posição já evidenciada desde o início e reforçada nas alegações finais, é no sentido da procedência da presente ação penal.”

Ministro do STF Alexandre de Moraes — Foto: Luiz Silveira/STF

Ministro do STF Alexandre de Moraes — Foto: Luiz Silveira/STF

Defesa

 

Advogado que falou em defesa de Eduardo foi o Defensor Público Esdras dos Santos Carvalho. Eduardo não indicou advogado.

Ele pediu a absolvição do ex-deputado por falta de provas. A DPU afirmou que questões processuais justificam a anulação de todo o processo, entre elas, a participação de Moraes no julgamento.

Para a Defensoria, Eduardo teve uma defesa “meramente formal, produzida sem qualquer contato com o defendido, sem sua versão dos acontecimentos e sem sua orientação.

A DPU afirmou que o caso é de absolvição por falta de provas, sendo que as condutas narradas pela Procuradoria não configuram crime e as declarações estavam protegidas por liberdade de expressão.

 

Operação da PM apreende arsenal com armas e mais de 2 mil munições no Grande Recife

17/06/26 –  http://blogfolhadosertao.com.br –   Por TV Jornal

Material foi encontrado em duas residências após investigação do Serviço de Inteligência e prisão de suspeito de 19 anos em Jardim Jordão

Uma operação do 6º Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) resultou na apreensão de um arsenal composto por sete armas de alto calibre, mais de 2 mil munições e 20 carregadores. O material estava escondido em duas residências, sendo uma delas desocupada e utilizada, segundo a investigação, para armazenamento clandestino.

Esse texto foi gerado por inteligência artificial, com base em vídeo autoral da TV Jornal, sob monitoramento de jornalistas profissionais. Confira a reportagem completa no vídeo.

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Raquel Lyra e João Campos sustentam o acirramento e reforçam os embates

17/06/26 –  http://blogfolhadosertao.com.br –  Por  Betânia Santana

Pré-candidatos ao governo de Pernambuco se guiam por pesquisas para ampliar ataques
O cenário de acirramento revelado pela primeira pesquisa Folha/IPESPE deste ano para o governo de Pernambuco dita o ritmo das próximas semanas. O tom dos discursos, os ataques mútuos e a comparação entre as gestões devem ganhar intensidade.

Nem Raquel Lyra (PSD), nem João Campos (PSB) terão sossego. Tampouco darão trégua. Os números da amostragem estimulada ilustram esse equilíbrio: no primeiro turno, a governadora soma 44% das intenções de voto, contra 42% do ex-prefeito do Recife.

Aliados de João Campos apostam em uma disputa mais igualitária a partir do dia 4, quando a governadora fica proibida de inaugurar obras, assinar ordens de serviço e veicular propaganda institucional. Entregas recentes teriam sido responsáveis pela subida dela nas pesquisas.

Com as limitações legais, o corpo a corpo será reforçado por ambos. O lançamento do programa “Chega Junto Pernambuco”, em Gravatá, serviu para aquecer os próximos embates, segundo interlocutores do pré-candidato do PSB.

Do outro lado, apoiadores de Raquel Lyra minimizam o principal trunfo da oposição no evento de segunda: o depoimento do presidente Lula. Avaliam que o presidente parecia desanimado e não descartou palanque duplo.

Já o grupo de João Campos enxerga na fala de Lula o alicerce para uma campanha de contorno ideológico, tentando colar na governadora a imagem do bolsonarismo.

A Folha/IPESPE aponta redução de 40% das intenções de voto a quem tem ligação com o ex-presidente Jair Bolsonaro ou seu filho Flávio. Em contrapartida, o apoio de Lula alavanca qualquer candidato em 45%.

Calor humano
O presidente da Alepe, Álvaro Porto, mobilizou caravanas do Agreste para o ato político em defesa da pré-candidatura de João Campos, segunda, em Gravatá. E observou não ter sido apenas a quantidade de gente que chamou a atenção. “Era impressionante a animação do povo, o calor humano de quem estava ali”, comentou.

Ordem do dia
O deputado Cayo Albino voltou ontem à Alepe. Assume a vaga de Waldemar Borges, que pediu licença de 180 dias para cuidar da saúde. Pretende, agora, tornar realidade o Código de Defesa dos Autistas e a PEC que cria o orçamento de juventude no estado.

Festa dupla
A abertura do São João de Araripina será hoje. E o prefeito Evilásio Mateus, que ano passado anunciou apoio à pré-candidatura de João Campos, recebe Raquel Lyra. O gestor tem sido cortejado por aliados da governadora. O ex-prefeito do Recife também deve marcar presença. Vai à festa na sexta-feira.

Mais presídios
Três novas unidades, com 1.164 vagas, compõem agora o Complexo Prisional de Araçoiaba, no Grande Recife. A obra, parada há mais de dez anos e retomada em 2025, foi entregue pela governadora Raquel Lyra. Investimento de R$ 37 milhões (estadual e federal).

Tânia Maria tem título de cidadã recifense aprovado pela Câmara de Vereadores

17/06/26  –  http://blogfolhadosertao.com.br –   Por Mariana de Souza

Após interpretar Sebastiana em “O Agente Secreto”, atriz será homenageada pela por sua contribuição ao cinema e à cultura nordestina.

A concessão do título de cidadã recifense para a atriz Tânia Maria, de ‘O Agente Secreto’ foi aprovada pela Câmara de Vereadores do Recife na última segunda-feira (15), em votação que contou com o voto favorável de 23 parlamentares. A aprovação acontece pouco menos de um mês após a Casa rejeitar o mesmo título para Wagner Moura, protagonista no mesmo filme.

Nos últimos anos, a atriz ganhou destaque por interpretar Sebastiana em “O Agente Secreto”, longa-metragem dirigido pelo diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho e filmado no Recife.

A homenagem foi proposta pela vereadora Jô Cavalcanti (PSOL) e de acordo com o documento da proposta, busca reconhecer a trajetória artística da atriz e sua contribuição para a valorização da cultura nordestina no cinema nacional e internacional.

Nascida em Parelhas, no Rio Grande do Norte, Tânia Maria trabalhou como artesã e costureira e só começou sua carreira como atriz somente aos 72 anos, em Bacurau, mais um filme de Kleber.

Na justificativa apresentada à Câmara, a vereadora ressaltou que a homenagem busca reconhecer histórias de vida que representam a força e a resistência de mulheres nordestinas, além de destacar a importância da arte na construção da memória e da identidade coletiva.

Wagner Moura teve seu título rejeitado

A aprovação do título acontece poucos meses após a rejeição de uma iniciativa semelhante, proposta pelo vereador Carlos Muniz (PSB), homenageando o ator Wagner Moura, protagonista de “O Agente Secreto”. Na ocasião, o projeto não teve a quantidade mínima de votos favoráveis entre os 37 parlamentares exigida para aprovação, com 23 vereadores presentes na sessão, a votação foi encerrada com 16 votos à favor e sete contra.

Amigos, familiares e nomes da cultura se despedem de Carrero em velório na APL, no Recife

17/06/26  – http://blogfolhadosertao.com.br –     Por Alan Lopes

Familiares, amigos e personalidades prestaram as últimas homenagens a Raimundo Carrero em velório realizado na Academia Pernambucana de Letras

Velório de Raimundo Carrero foi realizado na Academia Pernambucana de Letras/Foto: Maurício Ferry/DP Foto

Velório de Raimundo Carrero foi realizado na Academia Pernambucana de Letras (Foto: Maurício Ferry/DP Foto)

Sob forte comoção, o corpo do escritor e jornalista Raimundo Carrero foi velado na tarde desta terça-feira (15), no casarão da Academia Pernambucana de Letras (APL), de onde ele era membro. A cerimônia reuniu familiares, amigos e personalidades políticas e do cenário cultural pernambucano, os quais destacaram não apenas o seu imenso legado na defesa da cultura regional e na formação de novos autores, mas também o homem afetuoso que ele foi.

Ao lado do marido até o fim, Marilene Carrero relembrou a difícil rotina de saúde enfrentada pelo romancista nos últimos dias de vida. “Foi um sofrimento. Depois da descoberta do câncer, minha preocupação passou a ser cuidar dele e fazer de tudo para mantê-lo vivo”.

Ela revela ainda que, por trás da genialidade literária, havia um companheiro marcado por um caráter profundamente generoso. “Era da natureza dele cuidar das pessoas. Raimundo era muito protetor e amoroso”, conta.

O jornalista, professor e pesquisador Rodrigo Carrero também buscou conforto nas lembranças e ressaltou a obstinação que definia o pai. “Vou me lembrar dele como uma das pessoas mais batalhadoras que conheci”.

Para ele, essa disciplina foi o fator determinante para transformar Raimundo em um dos maiores autores do país. “Para se tornar quem foi, ele organizou toda a sua vida em torno de um objetivo: sua obra. Tudo o que fazia estava, de alguma forma, ligado a ela”, explica Rodrigo.

 

O espírito afetuoso de Raimundo Carrero foi exaltado pelo ex-deputado Maurício Rands. Ele recordou que, anos atrás, o escritor se ofereceu para financiar a criação de um suplemento cultural no Diario de Pernambuco com o valor de uma premiação literária.

Embora a proposta tenha sido recusada, Rands nunca esqueceu da generosidade do gesto. “Raimundo era um apaixonado pela literatura, pelas letras e pelo jornalismo, especialmente pelo Diario”, destaca. “Há pessoas cuja trajetória justifica todos os elogios, e este é um desses casos. No seu caso, todo adjetivo ainda parece pouco”, completa.

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Raquel Lyra inaugura novo Hospital Nossa Senhora Aparecida e reforça atendimento na Região Metropolitana do Recife

17/06/26  – http://blogfolhadosertao.com.br   –  Imprensa PE
 

A unidade hospital já está atendendo pacientes regulados pela rede estadual

Fortalecendo a assistência à população e ampliando a capacidade da rede pública de saúde, a governadora Raquel Lyra inaugurou, nesta segunda-feira (15), o novo Hospital Nossa Senhora Aparecida (HNSA), em Paulista, na Região Metropolitana do Recife (RMR). Com investimento de R$ 178 milhões do Governo de Pernambuco, a unidade passa a integrar a Rede Estadual de Atenção à Saúde, reforçando o atendimento à população com 213 leitos. O hospital já está em funcionamento, recebendo, de maneira mais ampla neste momento, pacientes transferidos do Hospital da Restauração (HR), para que a emergência do Recife possa continuar avançando com as reestruturações. O novo hospital em Paulista também contribuirá para ampliar o acesso a consultas, exames, internações e cirurgias, com foco em pediatria e outras especialidades. A vice-governadora Priscila Krause participou da inauguração.

“O Governo de Pernambuco comprou o Hospital Nossa Senhora Aparecida, em Paulista, para fortalecer a rede pública de saúde e dar mais agilidade às obras do Hospital da Restauração, transferindo parte dos serviços para a nova unidade e melhorando o atendimento à população. Ao todo, investimos R$ 178 milhões. Dessa forma, os 213 leitos do hospital passam a reforçar a rede estadual, contribuindo para a descentralização do atendimento em Pernambuco”, ressaltou a governadora Raquel Lyra.

A unidade já está atendendo pacientes regulados pela rede estadual e assume um papel estratégico no suporte aos grandes hospitais do Estado, especialmente o Hospital da Restauração (HR). O HNSA está sendo administrado pela Organização Social de Saúde (OSS) Htri. O Governo de Pernambuco realizou a aquisição da unidade de saúde e, para viabilizar a implantação e operacionalização do hospital, foram realizados investimentos destinados à adequação da estrutura física, aquisição de equipamentos, mobiliário hospitalar, incorporação tecnológica e estruturação dos serviços assistenciais, como pintura, manutenção de equipamentos e troca de ar-condicionado.

O HNSA vai oferecer atendimentos especializados em pediatria clínica e cirúrgica, neurologia pediátrica, neurocirurgia pediátrica, endoscopia digestiva adulto e pediátrica, além de cuidados paliativos. “Este hospital tem 213 leitos e já começou a funcionar. Essa unidade servirá de retaguarda do Hospital da Restauração, possibilitando que as reformas no HR sigam acontecendo”, explicou a secretária de Saúde de Pernambuco, Zilda Cavalcanti.

Com cobertura assistencial estimada para cerca de 50 municípios, o Hospital Nossa Senhora Aparecida atenderá principalmente usuários da Região Metropolitana Norte e ajudará a absorver a demanda da I Macrorregião de Saúde, que concentra Recife e Região Metropolitana. O HNSA tem capacidade para realizar, mensalmente, 1.661 consultas, 381 internações, 531 atendimentos de urgência, 195 cirurgias e aproximadamente 33 mil exames. Nesta primeira fase de funcionamento, a estrutura contará com 10 leitos de UTI adulto, 10 leitos de UTI pediátrica e 94 leitos de enfermaria para adultos e crianças.

Presente na inauguração, o prefeito de Paulista, Severino Ramos, celebrou a inauguração do hospital. “O Governo de Pernambuco teve a sensibilidade e o compromisso para essa entrega. Vamos conseguir desafogar o grande Hospital da Restauração e as demais unidades hospitalares”, afirmou.

Acompanhando a inauguração, o senador Fernando Dueire afirmou que a “entrega significa excelência e dignidade para a saúde de Pernambuco”. O deputado federal Mendonça Filho destacou que “a inauguração representa a revolução da saúde pública de Pernambuco”. Já a deputado estadual Socorro Pimentel, festejou a entrega. “Vamos salvar vidas, fazendo cirurgias neurológicas. Temos mais de 200 que vão estar servindo para a Região Metropolitana do Recife”, finalizou.

Acompanharam a entrega os secretários estaduais Andreza Pacheco (Assistência Social, Combate à Fome e Política Sobre Drogas) e Ana Paula Jardim (interina de Cultura); os deputados estaduais Joãozinho Tenório e Jarbas Filho. Também estiveram presentes o Superintendente do Ministério da Saúde em Pernambuco, Rosano Carvalho; o prefeito em exercício de Olinda, Chiquinho; o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho; o ex-prefeito de Paudalho Marcelo Gouveia; a ex-prefeita de Casinhas Juliana de Chaparral; além de vereadores e lideranças locais.

Fotos: Janaína Pepeu/Secom

Escritores e jornalistas celebram o legado de Raimundo Carrero para a literatura e o jornalismo

17/06/26 –  blogfolhadossertao.com.br  –  Por André Guerra

Profissionais que trabalharam com Raimundo Carrero no Diario e colegas escritores relembram vida e obra do autor pernambucano, que faleceu nesta terça

 /Foto: Benedito Soares/Acervo DP

(Foto: Benedito Soares/Acervo DP)

A literatura, o jornalismo e a cultura pernambucana se despediram nesta terça (16) de uma de suas vozes mais influentes. Nacionalmente celebrado pelo poder transformador de obras que marcaram gerações, Raimundo Carrero, que faleceu aos 78 anos nesta madrugada, em decorrência de um câncer, atravessou a própria história do Diario de Pernambuco em diferentes momentos. Em seus dois últimos meses de vida, compartilhou com o leitor deste jornal, em sua coluna semanal Diario Cultural, reflexões sobre cultura brasileira, ecoando ideias que já são parte do nosso imaginário.

Nascido em Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, em 1947, Carrero se formou em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mas sua carreira como jornalista, no Diario, reforçou desde muito cedo a força de sua escrita. Em novembro de 1969, ele entrou como estagiário na redação do jornal e, a partir daí, passou por diversos cargos — entre eles, o de editor-chefe.

O escritor marcou época por 25 anos no Diario, trabalhando com alguns dos nomes mais importantes do período, como Gladstone Vieira Melo, Geneton Moraes Neto, Lêda Rivas e Fernando Spencer. Ele se tornou, nessa mesma época, um dos principais autores responsáveis pela difusão Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna — cuja data de nascimento coincide com a data do falecimento de Carrero.

Foi na época de redação que, ao ouvir uma pitoresca história contada por um morador de São Lourenço da Mata, ele teve a inspiração para escrever o que se tornaria uma das lendas urbanas mais conhecidas do Recife: a Perna Cabeluda. Neste ano, a história ficou mundialmente conhecida depois de ser levada ao Oscar pelo filme “O Agente Secreto”.

“A História de Bernarda Soledade: A Tigre do Sertão”, de 1975, foi sua estreia em grande estilo no romance, narrando a história de uma mulher sertaneja que desafia o coronelismo e impõe sua vontade. “Viagem no Ventre da Baleia” (1987), “Maçã Agreste” (1989), “Sinfonia para Vagabundos” (1992) e “O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo” (2015) estão entre os mais marcantes momentos de sua rica bibliografia. Vários de seus títulos foram premiados, como “As Sombrias Ruínas da Alma”, que venceu o Prêmio Jabuti em 2000.

Autores da cena literária pernambucana lamentaram a perda do escritor. Em depoimento ao Diario, Samarone Lima relembrou um momento emocionante com ele: “Participei de uma a mediação em que precisei fazer a leitura de 30 páginas de uma de suas obras-primas, ‘Somos Pedras que Se Consomem’. Fiquei nervoso e emocionado com a força de suas palavras. Me confortou vê-lo feliz em me assistir lendo aquele texto. Era uma pessoa festiva e animada, que colocava os outros para cima”, conta.

 

Atualmente vereadora do Recife, a poetisa Cida Pedrosa também expressou sua tristeza. “Eu nunca escrevi um livro que ele não falasse sobre e ele nunca escreveu um livro que eu não fosse estar na fila para ler. Tenho toda a obra dele na minha casa. Ele é dono de personagens absolutamente marcantes, principalmente mulheres, que são uma constante no seu trabalho. A literatura perde um de seus maiores escritores. O país inteiro está menor, mais triste”, declarou.

O escritor Marcelino Freire também se manifestou: “Se hoje eu sou quem sou, se escrevo, se ajudo outras autorias a se firmarem nas páginas de um livro, foi Carrero quem pegou na minha mão. Eu fui da sua primeira turma de oficina no Recife. Ele me ajudou a ler. Dissecou ‘Vidas Secas’, ressuscitou ‘Memórias Póstumas’. Continuarei na batalha para honrar o seu legado, a sua catártica existência, a sua memória”, exaltou.

Crítico literário e escritor, Sidney Rocha salientou como o ofício de Carrero se misturava com sua essência de ser humano. “Ele sempre foi uma ponte e uma fonte de liberdade na literatura. Seu grau de compreensão literária sempre foi gigantesco. A gente nota como existe no seu trabalho um espírito interessado em transformar o texto em algo vivo. A sua vida e a sua literatura eram praticamente uma coisa só. Perco um grande amigo, mas todos ganhamos uma grande obra”, pontuou.

TEMPO NO DIARIO

Colegas de trabalho que dividiram a redação do Diario com Carrero também prestaram suas homenagens a ele. A jornalista Kethuly Góes destacou a inteligência e o humor de Carrero. “Ter convivido com ele foi como testemunhar o quanto a literatura e a vida podem andar de mãos dadas. Como jornalista, tive o privilégio de partilhar redações com ele, no Diario e na TV Universitária. Como amigo, as conversas que tínhamos sempre nos deixavam melhores do que quando começávamos. E mesmo com a carreira amplamente reconhecida, no Brasil e no Exterior, ele nunca abandonou a simplicidade”, lembra.

Ivana Moura, que atuou como repórter e editora do caderno Viver, reafirmou o carisma do Carrero jornalista. “Ele tinha aquele vozeirão, aquela gargalhada típica, um raciocínio rápido para tudo. Era uma daquelas figuras que magnetizam a atenção. Quando o conheci no Diario, ele cuidava da editoria de Últimas Notícias, mas já tinha publicado alguns livros e estava em plena ascensão literária. Não só a literatura fez muito por ele como, principalmente, Carrero e a sua literatura salvaram muita gente”, disse a jornalista.

Salgueirense: Morre o escritor Raimundo Carrero, aos 78 anos

16/06/26  –  http://blogfolhadosertao.com.br –    Por Danielle Romani

Premiado escritor pernambucano faleceu, nesta terça-feira (16), em decorrência de um câncer, deixando legado na literatura e no jornalismo; velório acontece na APL das 12h às 15h

Foto Roberta Guimarães/Divulgação

O escritor Raimundo Carrero morreu aos 78 anos, na madrugada desta terça-feira (16), no Recife. A causa da morte foi um câncer, segundo nota divulgada pela família. O velório acontece na Academia Pernambucanas de Letras, da qual era membro, no bairro das Graças. O corpo será velado entre 12h30 e 15h. De lá, segue para o Cemitério de Santo Amaro, onde será sepultado, às 16h. A morte de Carrero coincide com a data de nascimento do escritor Ariano Suassuna.

Logo cedo, na sua página do Instagram, a governadora de Pernambuco Raquel Lyra lamentava a morte do escritor. “Em sua memória e em reconhecimento a sua trajetória, Pernambuco terá luto oficial de três dias. A minha solidariedade à família, amigos e inúmeros leitores neste momento de despedida”.

A presidente da Academia Pernambucana de Letras, Margarida Cantarelli, era próxima do escritor. E lembra que além do talento de escritor, outra característica de Carrero era a generosidade. “Fazia suas oficinas para que outras pessoas que tinham dom da escrita pudessem aprimorar, melhorar sua produção. Ajudou a criar gerações de escritores. Era um professor.”

O escritor Cícero Belmar, colega seu da APL também destaca sua maestria. Lamentou a morte do autor: “Ele foi fundamental para provocar, para incentivar, para orientar as pessoas que viam na literatura a possibilidade de vivenciar a arte. Ele foi um professor, no sentido mais profundo que ele significa na literatura.”

Marcelino Freire foi aluno da primeira turma de sua oficina literária: “Ele me pegou pela mão. Ele deu chão para meus textos. Sempre disse a ele o quanto o admirava e o quanto eu era grato por sua existência em minha vida. E o quanto ele era inspiração para minha caminhada.”

“Perco um grande amigo, estou com o coração partido, estou desarvorada (…) A primeira vez que eu vi, ele estava no plantão do jornal, quando ele ainda era repórter de polícia. E eu fui lá levar uns poemas para ele ver. Eu devia ter menos de 17 anos, sabe? Ele não só leu, deu boas risadas, brincou, disse coisas sobre os meus poemas e desde lá nós fizemos uma amizade que só cresceu a vida inteira”, declarou a poeta Cida Pedrosa.

O jornalista e escritor Xico Sá também se posicionou: “Aqui no frio miserável de São Paulo, recebo a notícia triste bem cedo, em uma mensagem do amigo Marcelino Freire. Bateu aquele esmorecimento, aquela fraqueza na alma que só um acontecimento como esse é capaz de gerar. Um pouquinho depois, relembrei também a alegria que foi conhecer e ler Raimundo Carrero. Amo quase todos os seus livros, mas, como lhe confessei, em um porre na Madalena, tenho um amor especial por Sinfonia para vagabundos.”

O escritor e poeta José Mário Rodrigues, outro membro da APL, fez questão de lembrar das coincidências entre sua trajetória e a de Carrero. “Ele tinha uma idade próxima à minha. Veio do Sertão na mesma época que eu vim de Garanhuns para o Recife. Participou da Geração 65. Fez parte do movimento armorial e era próximo de Ariano Suassuna como eu. Chegou a me mostrar alguns dos primeiros originais dele. Era uma pessoa de talento, com um enorme poder de diálogo. Nasceu para ser romancista. Era totalmente voltado para a literatura. Era um homem solar.”

Especialista em teoria literária e professor da Universidade Federal de Pernambuco, Anco Márcio Tenório Vieira escreveu uma nota em homenagem ao escritor sertanejo: “Com Raimundo Carrero morto, morre uma das vozes literárias mais potentes da sua geração. Do ponto de vista formal, a obra de Carrero é uma aula exemplar para aqueles que desejam se aventurar na vida literária. Porém, não basta que uma obra seja formalmente bem-realizada, faz-se necessário que ela também se componha de carne e de espírito humano. E essa carne e esse espírito humano urdem cada um dos seus romances e contos. Em Carrero, o dizer e o como dizer são irmãos siameses. Um precisa do outro para traduzir personagens atormentados pela fé, pela angústia, pelo desencontro e pela miséria do existir, pelo medo da dor, da doença e da morte.”

A cineasta Lucy Alcântara, que produziu o documentário Carrero, o áspero amável e desenvolveu uma forte ligação com o escritor, enviou uma nota-despedida: “Carrero, meu querido amigo e parceiro, você é Imortal. Na APL, como escritor, eternamente. Na minha vida cinematográfica sua ocupação foi, é e será constante: prosador em Geração 65, aquela coisa toda, ator e autor em A minha alma é irmã de Deus e objeto fílmico em Carrero, o áspero amável. No meu pensamento, como corroteirista, sua presença continuará em nossa parceria no longa Quarteto Áspero e na minissérie Os Ásperos. No meu coração, sua amizade se perpetuará.”

O escritor Ronaldo Correia de Brito lembrou que o amigo além de ser um dos maiores autores contemporâneos, era também um mestre. “Carrero é uma referência como escritor para toda uma geração contemporânea dele e para toda uma geração formada por ele. Além de um escritor brilhante, um dos maiores escritores contemporâneos do Brasil, ele formou em suas oficinas literárias gerações de escritores, a exemplo de Marcelino Freire, Wilson Freire, só para citar alguns nomes.”

Incansável e singular

Ao longo de mais de cinco décadas de produção literária, Carrero construiu uma obra robusta. Embora frequentemente associado ao universo do Sertão nordestino e ao Movimento Armorial idealizado por Ariano Suassuna, sua literatura nunca se limitou à representação regional. Seus romances mergulham em territórios mais inquietantes: a culpa, a loucura, o desejo, a violência, a fé e os abismos da condição humana.

A relação de Carrero com a literatura começou cedo. Em entrevistas, o escritor costumava recordar que seu encontro com os livros aconteceu ainda na juventude, quando teve acesso a uma coleção deixada por um irmão. A descoberta da leitura abriu uma janela para mundos que ultrapassaram as fronteiras do Sertão.

Mais tarde, já vivendo no Recife, estudou Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco e passou a frequentar círculos intelectuais que reuniam artistas, jornalistas e escritores. Foi um dos expoentes da Geração 65, que incluía nomes como Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro, José Mário Rodrigues e outros. Foi nesse ambiente que conheceu Ariano Suassuna, amizade que marcaria profundamente sua trajetória. Suassuna enxergou no jovem escritor um talento raro e o incentivou a desenvolver uma literatura conectada às raízes culturais nordestinas sem abrir mão da ambição estética.

Na década de 1970, Carrero participou do Movimento Armorial, projeto cultural que buscava criar uma arte erudita brasileira inspirada nas tradições populares do Nordeste. Mas, embora compartilhasse desse universo simbólico, logo ficou claro que sua escrita seguiria um caminho próprio. Se em Suassuna predominavam o humor, o encantamento e a celebração das matrizes populares, em Carrero surgia uma atmosfera mais densa, marcada por conflitos interiores, tensões psicológicas e uma permanente investigação dos limites entre sanidade e desvario.

Seu romance de estreia, A História de Bernarda Soledade: A Tigre do Sertão, publicado em 1975, já revelava muitas das características que se tornariam marcas de sua obra. Ao longo dos anos, vieram livros como Sombra SeveraViagem no Ventre da BaleiaMaçã AgresteSomos Pedras que se ConsomemO Amor Não Tem Bons Sentimentos, entre muitos outros. Em 2000, foi agraciado com o Prêmio Jabuti na categoria contos pelo livro As sombrias ruínas da alma. Em 2010, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura pelo romance Minha alma é irmã de Deus.

Em 2025, publicou um romance de tom memorialístico e autobiográfico, A vida é traição, onde relembra a infância em Salgueiro, a morte da mãe, sentimentos que lhe afligiam no cotidiano. Era como se vislumbrasse que era preciso resgatar e registrar o passado.

Em todos os seus livros, os personagens parecem viver à beira de um precipício emocional. São homens e mulheres consumidos por paixões extremas, por culpas ancestrais, por fanatismos religiosos ou por impulsos destrutivos que desafiam qualquer tentativa de explicação racional.

Por isso, muitos críticos observam que o verdadeiro cenário dos romances de Carrero não é o sertão físico, mas o sertão da alma. Embora suas narrativas frequentemente recorram à paisagem nordestina, o interesse do escritor está menos na descrição geográfica do que na exploração dos conflitos humanos. Seus personagens carregam feridas abertas, vivem cercados por fantasmas e enfrentam dilemas que transcendem qualquer contexto regional. O Sertão, em sua literatura, transforma-se numa metáfora do próprio ser humano, um espaço de solidão, mistério e combate interior.

Essa singularidade levou Carrero a ser comparado a autores como Juan Rulfo. Como ele, desenvolveu uma escrita que rejeita o realismo convencional. Em seus livros, o tempo nem sempre segue uma linha reta, os narradores podem ser pouco confiáveis e a realidade se mistura constantemente ao sonho, à memória e à alucinação. A linguagem assume papel central, tornando-se não apenas instrumento de narração, mas também matéria-prima da própria experiência literária.

Jornalismo

Paralelamente à carreira de escritor, Carrero construiu uma sólida trajetória no jornalismo. Trabalhou durante décadas no Diario de Pernambuco, onde atuou como repórter, crítico literário e editor. Essa experiência contribuiu para ampliar seu olhar sobre a sociedade brasileira e consolidou seu papel como importante articulador cultural.

Ao mesmo tempo, dedicou-se intensamente à formação de novos autores. Sua oficina de criação literária, criada no Recife, tornou-se uma referência nacional e ajudou a revelar diversos escritores que mais tarde conquistariam reconhecimento no cenário literário brasileiro.

Em 2010, a vida de Raimundo Carrero sofreu uma transformação dramática. O escritor foi vítima de um acidente vascular cerebral. Para alguém cuja existência sempre esteve profundamente ligada à palavra, o desafio de continuar a escrever passou a ser maior. O episódio acabou se convertendo também em matéria literária. Em vez de se afastar da escrita, Carrero transformou a experiência da fragilidade em reflexão artística. O romance O senhor agora vai mudar de corpo nasceu desse período e é considerado por muitos leitores uma das obras mais emocionantes de sua trajetória, justamente por abordar a vulnerabilidade humana sem sentimentalismo, mas com rara intensidade.

O reconhecimento à sua produção veio por meio de importantes premiações. Ao longo da carreira, recebeu distinções como o Prêmio Jabuti, a mais tradicional honraria literária do país, além de troféus da Associação Paulista de Críticos de Arte e do Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional. Em 2005, passou a ocupar a cadeira número 3 da Academia Pernambucana de Letras, consolidando sua posição entre os principais nomes da cultura do estado.

DANIELLE ROMANI, repórter especial das revistas Pernambuco e Continente