13/08/26 – http:/blogfolhadosertao.com.br – Por Livia Nane/Agência O Globo
Antes da decisão anunciada pela Diocese de Jundiaí, Rodrigo de Oliveira da Silva já havia pedido seu afastamento da Igreja Católica
O padre Rodrigo de Oliveira da Silva foi declarado em situação de cisma e excomunhão pela Diocese de Jundiaí, no interior de São Paulo, após aderir à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo tradicionalista que não está em plena comunhão com a Igreja Católica. A decisão foi comunicada pelo bispo diocesano, dom Arnaldo Carvalheiro Neto, em nota pastoral publicada na quinta-feira (6).
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Segundo a diocese, o padre Rodrigo de Oliveira da Silva passou a integrar a fraternidade e, por isso, encontra-se em situação de cisma e excomunhão após a ordenação episcopal de quatro sacerdotes da organização, realizada em 1º de julho de 2026 sem mandato apostólico e, de acordo com a Santa Sé, em desobediência ao papa Leão XIV.
A Diocese de Jundiaí afirma que, em 2 de julho, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um decreto e uma nota explicativa sobre as consequências canônicas das ordenações. As orientações foram posteriormente encaminhadas aos bispos brasileiros pela Nunciatura Apostólica no Brasil.
Na nota, dom Arnaldo afirma que, em razão da adesão à fraternidade, os atos do ministério do padre Rodrigo são considerados ilícitos. A diocese também declara que as absolvições concedidas por ele no sacramento da confissão e os casamentos por ele celebrados são inválidos.
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O padre coordena um espaço de culto no território da Diocese de Jundiaí. Segundo o bispo, as celebrações, atividades pastorais, iniciativas de formação e demais atos realizados no local não ocorrem em comunhão com o papa nem com o bispo diocesano e, portanto, são considerados irregulares pela Igreja.
A diocese também orientou os fiéis a não frequentarem o espaço. A nota afirma que leigos que aderirem formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, adotando suas posições e recusando a submissão ao papa e aos bispos, também podem incorrer nas penas de cisma e excomunhão. O documento acrescenta que a participação habitual ou exclusiva nas atividades promovidas pela fraternidade pode igualmente levar a essas consequências.
A Diocese de Jundiaí encerra a nota exortando os fiéis a permanecerem em comunhão com o papa e com os bispos e a se afastarem de ambientes que defendam uma ruptura com a autoridade da Igreja como forma de suposta fidelidade à tradição católica.
Padre havia pedido afastamento
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Antes da decisão anunciada pela Diocese de Jundiaí, Rodrigo de Oliveira da Silva já havia pedido seu afastamento da instituição. Em vídeo publicado em março, o sacerdote afirmou que havia enviado, no fim de janeiro, uma carta ao bispo dom Arnaldo Carvalheiro Neto para comunicar sua “inquietação” diante do que classificou como uma crise na Igreja Católica.
No vídeo, Rodrigo disse ter decidido “optar pela tradição” após estudar e rezar sobre a situação da Igreja. Segundo ele, testemunhos de outros sacerdotes ligados ao movimento tradicionalista, como os padres François Costa e Vander, contribuíram para que tomasse a decisão.
— Optar pela tradição, como todos sabem, é remar contra a maré. Sabemos que não estamos sozinhos, que o Senhor não abandona aqueles que a Ele se confiam, que a Virgem Santa e o seu Imaculado Coração triunfarão. Mas sabemos que é um momento delicado — afirmou.
Na gravação, o padre também declarou que continuaria celebrando a missa tradicional, atendendo confissões, visitando doentes e realizando seu apostolado, apesar do que chamou de “pseudo-suspensão das ordens” decorrente da situação da Igreja.
Na época, Rodrigo também divulgou uma campanha de arrecadação para viabilizar a compra de um imóvel em Campo Limpo Paulista, na região de Jundiaí, onde pretendia estabelecer um espaço dedicado ao apostolado tradicionalista. Segundo ele, o terreno tinha 4,5 mil metros quadrados e 80 metros quadrados de área construída e estava sendo oferecido por R$ 190 mil.
O sacerdote afirmou que, naquele momento, morava de aluguel em um imóvel onde havia adaptado um cômodo para celebrar missas. Ele agradeceu ainda ao Centro Dom Bosco, grupo católico tradicionalista, pelo apoio à campanha e pelas doações de objetos litúrgicos, incluindo altar e sacrário.
Trajetória
Natural de Cajamar, no interior de São Paulo, Rodrigo estudou no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Desterro, da Diocese de Jundiaí, e concluiu a formação em Filosofia e Teologia em 2009. Em 2010, foi ordenado diácono e, no ano seguinte, recebeu a ordenação sacerdotal.
Rodrigo foi ordenado padre em 12 de dezembro de 2011, na Catedral Nossa Senhora do Desterro, em Jundiaí. Segundo o relato feito por ele no vídeo, passou cinco anos na Diocese de Marabá, no Pará, em auxílio a um território de missão. De volta a Jundiaí, assumiu a Paróquia Santo Antônio de Pádua e Votuporoca.
Posteriormente, pediu ao bispo autorização para fazer uma experiência de vida eremítica na Diocese de Campanha, onde permaneceu até o fim de 2025. No início de 2026, comunicou sua decisão de deixar a Diocese de Jundiaí e seguir o apostolado ligado à tradição católica.
Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X reúne católicos tradicionalistas que defendem a preservação da liturgia anterior ao Concílio Vaticano II e se opõem a parte das reformas promovidas pela Igreja Católica a partir da década de 1960.
Entre as principais bandeiras do grupo estão a celebração da missa segundo o rito tridentino, em latim, com o sacerdote voltado para o altar, além de críticas a mudanças litúrgicas e pastorais introduzidas após o Concílio Vaticano II.
Realizado entre 1962 e 1965, o Concílio Vaticano II promoveu uma das maiores reformas da Igreja Católica. As missas passaram a poder ser celebradas nas línguas locais, o sacerdote passou a celebrar voltado para os fiéis e a Igreja ampliou o diálogo com outras religiões e com o mundo contemporâneo.
A Fraternidade São Pio X considera que parte dessas mudanças representa um afastamento da tradição católica e defende uma interpretação mais rigorosa da doutrina e da liturgia.
O conflito entre o grupo e o Vaticano se intensificou em 1988, quando Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização do Papa João Paulo II. Na ocasião, ele e os bispos ordenados foram excomungados por desafiar a autoridade da Santa Sé.
Em 2009, o papa Bento XVI retirou a excomunhão dos quatro bispos em uma tentativa de promover a reconciliação. Apesar disso, a Fraternidade permaneceu em situação canônica irregular, e as divergências doutrinárias e disciplinares nunca foram plenamente resolvidas.
Agora, com a ordenação de quatro novos bispos sem autorização da Santa Sé, o Vaticano voltou a considerar que os envolvidos incorreram em excomunhão e classificou a adesão formal à fraternidade como um ato de cisma, reacendendo um conflito que atravessa mais de cinco décadas.
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