O Diário, Anibal e um episódio a estudar

03/03/26  –  http://blogfolhadosertao.com.br  – Por Leda Rivas

 

Aníbal Fernandes -Anibal Fernandes, legenda
do jornalismo pernambucano
Amanhã,  (hoje) 3 de março, completam-se 72 anos da grande passeata estudantil em protesto contra a ditadura Vargas, no Recife, cujo ponto culminante foi o comício realizado na sacada do Diario de Pernambuco, jornal que se destacava, então, como um dos maiores opositores do regime no país. O DP tinha um nome: Anibal Fernandes. Aliadófilo de primeira hora, fizera do seu jornal uma trincheira contra o nazi-fascismo. Anti Estado Novo, afrontava os poderosos da vez com primeiras páginas contundentes e editoriais carbonários. Aníbal estava ali, na sacada do Diario, quando, no âmbito do protesto, começaram os discursos: primeiro, o estudante de Direito, Odilon Ribeiro Coutinho (mais tarde, escritor, empresário e político), em seguida, o sociólogo Gilberto Freyre. Foi quando, a polícia, do lado de fora, começou a atirar. Uma bala atingiu o acadêmico de Direito Demócrito de Souza Filho, que estava ao lado de Freyre. Na Pracinha, onde a multidão se aglomerava, outra bala atingiu o operário Manuel Elias dos Santos, o Manuel Carvoeiro. Ambos morreram. Contaram-me que o operário morreu em abandono, pois os médicos se concentraram no atendimento ao estudante.
Trata-se de um episódio controvertido até hoje. Trabalhando o assunto, a fim de compor as fontes para a realização da minha dissertação de mestrado em História na Universidade Federal de Pernambuco – subordinada ao tema “O Diario de Pernambuco e a II Guerra Mundial – o conflito visto por um jornal de província” – consegui gravar vários depoimentos de testemunhas da época.
A questão era: a quem a bala fora dirigida. “A mim”, sustentou Gilberto Freyre, enfaticamente, ao que argumentei que não podia ser, pois nem a polícia estadonovista teria coragem de atentar contra uma já celebridade internacional. E era fim de guerra. Comissário de polícia, presente ao episódio, Oswaldo Lima Filho, depois parlamentar e ministro de Estado, defendeu-se da acusação de ter iniciado o tiroteio da Pracinha: “Foi uma bala perdida”. Teoria que prevalece até hoje.
Na minha humilde visão, o destino do projétil era o diretor abusado, briguento, incomodativo, Aníbal Fernandes. Calar o jornalista era uma questão de honra para a polícia política. A bala, entretanto, pegou o acadêmico coadjuvante, mais alto do que seus colegas de púlpito. Segundo o geógrafo e historiador Manuel Correia de Andrade, um dos estudantes que fizeram parte do protesto do 3 março, a bala jamais seria destinada a Demócrito, “um estudante como outros, sem liderança destacada”.
Acho que o episódio do 3 de março deve ser objeto de estudo mais acurado dos pesquisadores. Da mesma forma que os investigadores na área de comunicação social poderiam se ater ao papel desempenhado por Aníbal Fernandes, no século passado. Mas, isto é história. Quem se interessa?
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