2º Simpósio sobre Questão Racial debate ações afirmativas e homenageia Frei David na Univasf

15/05/26  –  http://blogfolhadosertao.com.br  –   Ascom  Univasf


O Seminário começou com a apresentação do projeto “Eu Tenho Fé na Capoeira”.

Ao som do berimbau, do pandeiro e das palmas do projeto “Eu Tenho Fé na Capoeira”, foi aberto  dia 13,  o 2º Simpósio sobre Questão Racial da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A força da manifestação cultural afro-brasileira deu o tom inicial das discussões sobre ações afirmativas, reparação histórica e garantia de direitos, temas centrais do encontro realizado no Cineteatro do Campus Sede, em Petrolina (PE). A abertura do evento foi marcada por debates sobre a efetividade das ações afirmativas e pela concessão do título de Doutor Honoris Causa a Frei David, uma das principais lideranças históricas do movimento negro no país.

Promovido pelo Observatório das Políticas Afirmativas Raciais e pela Seção Sindical dos Docentes da Univasf, o simpósio reúne pesquisadores, estudantes, gestores, representantes do poder público e movimentos sociais. “Queremos consolidar esta data como um marco de realização do evento, por ser um dia de luta e de defesa da garantia de direitos. O simpósio também é um momento de trazer pessoas dos grandes centros para conhecer e dialogar sobre o que estamos produzindo aqui no Vale do São Francisco”, declarou Ana Luisa de Oliveira durante a mesa de abertura.

A outorga do título de Doutor Honoris Causa a Frei David, em reconhecimento à sua trajetória na defesa da igualdade racial, do acesso da população negra ao ensino superior e das políticas de inclusão educacional no Brasil, foi um dos momentos marcantes desta segunda edição do simpósio.

“Este é um reconhecimento ao trabalho de Frei David e da Educafro, que têm desempenhado um papel fundamental ao provocar o Estado brasileiro, de diferentes formas, para que assuma e cumpra seu compromisso institucional com a promoção da igualdade racial”, ressaltou o reitor Telio Nobre Leite.

Em seu discurso, Frei David destacou o papel da Educafro e de suas iniciativas voltadas à fiscalização e à promoção da igualdade racial nas instituições públicas e privadas. Ao longo da fala, o homenageado também refletiu sobre a necessidade de garantir a efetividade das políticas afirmativas já existentes. “Criaram políticas, mas elas não estão funcionando efetivamente”, afirmou, ao defender maior compromisso institucional com a implementação das ações de combate às desigualdades raciais.

“Esse é o motivo da nossa existência: ter uma sociedade justa que dá oportunidade para todos”, declarou. Em outro momento, reforçou que o combate ao racismo exige posicionamentos concretos das instituições e da sociedade. “Não basta ser progressista, precisa ser antidiscriminatório”, enfatizou.

Ao comentar o significado da homenagem recebida, Frei David destacou a importância do reconhecimento da trajetória da população negra no ambiente universitário. Segundo ele, o primeiro negro a ser agraciado com o título de Doutor Honoris Causa em uma universidade brasileira foi homenageado há apenas oito anos.

“Esse reconhecimento simboliza o despertar das universidades para uma realidade antes adormecida: a do povo afro-brasileiro. Fiquei muito feliz porque fui agraciado por uma universidade do interior do Brasil. E mais feliz ainda porque isso acontece às margens do Rio São Francisco, cujo grande místico, São Francisco de Assis, é a pessoa que sigo e considero meu guia espiritual”, ressaltou.

O reitor Telio Nobre Leite também abordou, durante a cerimônia, a presença do racismo estrutural nas instituições, inclusive na própria Univasf. Ao tratar da aplicação da Lei nº 12.990/2014, destacou os apontamentos do Observatório Opará sobre a baixa efetividade da reserva de vagas para a população negra nos concursos públicos da universidade.


O reitor Telio Leite falou sobre as políticas de ações afirmativas da Universidade.

Segundo ele, o reconhecimento dessas falhas é fundamental para impulsionar avanços mais concretos nas políticas afirmativas. O reitor afirmou que a universidade passou a adotar, desde 2022, uma nova metodologia nos concursos públicos, o que possibilitou elevar para mais de 90% a ocupação das vagas reservadas. Também ressaltou que a instituição tem buscado reparar vagas que deixaram de ser preenchidas desde 2024. No concurso atualmente em andamento, cerca de 70% das vagas são destinadas a ações afirmativas, contemplando pessoas negras e pessoas com deficiência.

Presente na abertura do simpósio, Débora Moura, professora substituta do Instituto Federal da Bahia em Camaçari e mestranda do Profsócio, apresentará no evento um trabalho sobre ações afirmativas dentro da sala de aula. Para ela, o simpósio representa um espaço de encontro entre pessoas comprometidas com a luta antirracista e a promoção da igualdade racial. “As expectativas são grandes porque há aqui pessoas que admiro e acompanho. Já conhecia alguns trabalhos e também a militância do Frei, e considero esse título mais do que merecido”, afirmou.

Ainda pela manhã, a mesa-redonda “A efetividade das ações afirmativas raciais no serviço público federal: experiências institucionais e boas práticas” reuniu especialistas e representantes de instituições públicas para discutir avanços, desafios e mecanismos de implementação das políticas afirmativas. Compuseram a mesa a coordenadora-geral de Concursos e Provimento de Pessoal do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Queila Cândida Ferreira Morais; a diretora de Políticas de Ações Afirmativas do Ministério da Igualdade Racial, Marcilene Garcia de Souza; o auditor federal de Controle Externo no Tribunal de Contas da União, Almir Serra Martins Menezes Neto; e o procurador da República, Onésio Soares Amaral. A discussão foi mediada por Felipe Jacques Silva, servidor do Tribunal de Contas da Bahia.

O simpósio segue até amanhã (15), com mesas-redondas, conferências, apresentações orais e “Afropapos”. Cada dia do evento é dedicado a uma temática específica: “Marco Jurídico e Constitucional das Ações Afirmativas”, “Implementação, Monitoramento e Reparação” e “Ciência, Incidência Política e Caminhos para a Reparação”.

Flávio admite mentira sobre Vorcaro e tenta vincular relação com banqueiro apenas ao filme de Bolsonaro

15/05/26 –  http://blogfolhadosertao.com.br   –  Por Pedro Beija

Em entrevista à GloboNews, senador confirmou cobrança por repasses milionários e negou que recursos tenham beneficiado Eduardo Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concedeu entrevista à GloboNews, nesta quinta-feira (14), numa tentativa de justificar a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após as revelações do Intercept Brasil que trouxeram mensagens de Flávio cobrando Vorcaro por repasses destinados ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ao longo da entrevista, o senador, que também é pré-candidato à Presidência da República, admitiu ter mentido ao negar que conhecia Vorcaro, alegou que omitiu a relação por causa de cláusulas de confidencialidade envolvendo investidores do filme e tentou sustentar que o vínculo entre os dois era exclusivamente ligado ao projeto audiovisual.

“A única conexão que eu tenho com este senhor, Daniel Vorcaro, é esse filme”, afirmou.

Flávio repetiu diversas vezes que sua participação no projeto era a de buscar investidores privados para viabilizar a produção sobre o pai.

“A minha participação nisso é buscar investidores pra botar de pé um filme privado, com recursos privados, em homenagem ao presidente Jair”, declarou.

“Eu menti”

A principal pressão sobre Flávio durante a entrevista veio da mudança de versão em relação ao banqueiro. Horas antes da publicação das mensagens reveladas pelo Intercept, o senador havia negado qualquer relação com Vorcaro.

Na entrevista desta quinta, passou a justificar a negativa dizendo que havia um acordo de confidencialidade envolvendo os investidores do filme.

“Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade. Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”, afirmou inicialmente.

Questionado novamente sobre ter dito que não conhecia o banqueiro, o parlamentar acabou admitindo a mentira.

“Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores.”

Segundo Flávio, revelar a relação com Vorcaro inevitavelmente levaria à exposição do projeto do filme e dos empresários envolvidos no financiamento.

“Se eu falo assim, ‘eu conheço o Vorcaro’, a pergunta seguinte qual ia ser? ‘Qual a sua relação com ele?’ Eu ia ter que falar do filme”, declarou.

O senador afirmou ainda que outros investidores também exigiram cláusulas de sigilo e disse que empresários têm receio de se expor publicamente no projeto.

“Os outros dez investidores, ninguém quer aparecer. Todos têm contrato de confidencialidade, porque têm medo.”

Flávio diz que relação com Vorcaro é restrita ao filme

Durante a entrevista, Flávio tentou afastar a leitura de proximidade política ou pessoal com Vorcaro. Disse que o banqueiro era apenas um entre mais de dez investidores do longa e negou qualquer tipo de favor ou doação.

“Ele botou dinheiro, investiu num filme para receber o lucro dele de volta. Não tem caridade, não tem favor, não tem doação”, afirmou.

O senador também disse que não se pode analisar a relação com o banqueiro levando em conta o cenário atual, após as operações da Polícia Federal contra o Banco Master.

“Não dá para você querer trazer a preço de agora a realidade do final de 2024”, declarou.

Segundo Flávio, naquele momento Vorcaro circulava normalmente em Brasília e frequentava ambientes políticos e do Judiciário sem o desgaste provocado pelas investigações atuais.

O parlamentar afirmou ainda que torcia para que o banqueiro esclarecesse as acusações feitas contra ele.

Outro trecho da entrevista que chamou atenção foi a revelação de que Flávio chegou a cogitar levar Jair Bolsonaro para um encontro com Vorcaro, embora a reunião nunca tenha acontecido.

Fundo nos EUA e advogado de Eduardo

A entrevista também trouxe detalhes sobre a estrutura financeira usada para viabilizar o filme. Flávio confirmou que os recursos passaram por um fundo nos Estados Unidos administrado por Paulo Calixto, advogado ligado ao irmão de Flávio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL).

Segundo o senador, isso não significa que o dinheiro tenha sido destinado a Eduardo, que vive nos Estados Unidos desde o ano passado.

“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados nesse fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme.”

Flávio afirmou que o advogado foi escolhido por ser alguém de confiança da família Bolsonaro e por já ter atuado no processo de green card de Eduardo.

“Para colocar de pé uma estrutura dessa, criar um fundo, cuidar das questões legais, de burocracia, você tem que contratar um advogado”, afirmou.

O senador também tentou reforçar a legalidade da operação ao citar que o fundo é fiscalizado pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado financeiro dos Estados Unidos.

Cobranças e mensagens

As mensagens divulgadas pelo Intercept deram o tom da entrevista durante boa parte da conversa. Em um dos áudios revelados, Flávio aparece cobrando pagamentos atrasados e dizendo que o atraso estava causando tensão entre os envolvidos na produção do filme.

“Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso”, afirmou Flávio na gravação.

Em outra mensagem enviada ao banqueiro, o senador escreveu:

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

Questionado sobre o tratamento dado a Vorcaro nas conversas, Flávio minimizou o uso das expressões e afirmou que isso faz parte do linguajar carioca.

“’Irmão’, ‘mermão’, é uma expressão que a gente usa para cumprimentar, até para pedir um coco na praia.”

O parlamentar confirmou ainda que passou a cobrar Vorcaro quando os pagamentos previstos deixaram de ser feitos.

“As parcelas foram sendo pagas conforme estabelecido no contrato, e chegou um momento em que ele parou de pagar as parcelas”, disse.

Segundo Flávio, o banqueiro deixou de honrar os compromissos assumidos com o projeto, mas o filme conseguiu chegar à fase final graças à entrada de outros investidores.

CPMI e reação política

Durante a entrevista, Flávio também defendeu a instalação de uma CPMI para investigar o caso Banco Master e disse que é preciso separar “culpados de inocentes”.

Além disso, tentou rebater associações entre Vorcaro e o bolsonarismo ao mencionar contatos de integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com o banqueiro.

Sem apresentar os contratos de confidencialidade citados ao longo da entrevista, o senador afirmou que uma eventual divulgação dependeria da autorização dos investidores e dos responsáveis pelo fundo nos Estados Unidos.

“Os outros dez investidores, ninguém quer aparecer. Todos têm contrato de confidencialidade, porque têm medo”, declarou.