16/03/26 – http://blogfolhadosertao.com.br – Por Luis Nascimento
O longa pernambucano alcançou grande repercussão nas salas de exibição e ultrapassou a marca de 2,5 milhões de ingressos vendidos no Brasil

Apesar da repercussão fora do circuito tradicional do cinema brasileiro e da coleção de mais de 60 prêmios ao redor do mundo, “O Agente Secreto”, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, saiu da cerimônia do Oscar sem estatuetas.
O resultado foi anunciado neste domingo (15), durante a cerimônia no tradicional Dolby Theatre, em Los Angeles, nos Estados Unidos, que revelou os vencedores de cada categoria.
O ‘Agente Secreto’ concorria a Melhor Direção de Elenco, que ficou com Uma Batalha Após a Outra; Filme Internacional, conquistado por “Valor Sentimental”, da Noruega; Melhor Ator, com Wagner Moura, que foi vencido por Michael B. Jordan, de “Pecadores”, e Melhor Filme, que consagrou Uma Batalha Após a Outra como maior vencedor da edição deste ano.
Desde a estreia no circuito internacional no Festival de Cannes, em maio de 2025, “O Agente Secreto” colocou o cinema brasileiro em destaque. Com mais de 10 minutos de aplausos, a produção pernambucana foi aclamada pela crítica e pela imprensa internacional.
O filme fez história acumulando quatro indicações para o Oscar, maior premiação de cinema do mundo, para Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, para Wagner Moura, e Melhor Elenco, categoria que estreou nesta edição.
Celebração no circuito internacional
“O Agente Secreto” teve uma trajetória que seguiu o bom momento do cinema brasileiro. Após a vitória inédita de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, por Melhor Filme Internacional, o longa teve uma trajetória que consolidou essa relevância e manteve o país no centro dos debates.
Na estreia mundial, conquistou os prêmios de Melhor Diretor, para Kleber Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura, no Festival de Cannes.
A vitória em um dos festivais mais influentes de cinema chamou atenção da imprensa internacional e fez com que a produção pernambucana estivesse entre uma das mais celebradas pelo mundo.
A campanha de “O Agente Secreto” foi celebrada também com a vitória como Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards, marcando a primeira vez que um filme brasileiro conquistou a estatueta nesta categoria, e de Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura no Globo de Ouro.
Durante a campanha internacional, tanto Wagner Moura quanto Kleber Mendonça Filho tiveram suas trajetórias celebradas e aplaudidas. O ator e o diretor já tinham projeção consolidada no circuito internacional de cinema.
Cinema brasileiro e protagonismo do Recife
A grandeza de “O Agente Secreto” é uma sequência do bom momento do cinema brasileiro. No Oscar 2025, o destaque de “Ainda Estou Aqui” chamou atenção de todo o mundo para as produções do país.
O momento segue a tendência mundial, que coloca a cultura da América Latina no centro. Assim como na música, com o porto riquenho Bad Bunny, em “O Agente Secreto” são colocados em cena elementos como a memória, o esquecimento e a arte.
Na produção pernambucana, o Carnaval e o Cinema São Luiz são ferramentas políticas de resistência e de exaltação do popular.
É a normalidade em meio ao caos da Ditadura Militar instaurado na trama. Na sala de cinema e no frevo nas ruas do centro da cidade, o personagem Armando/Marcelo (Wagner Moura) encontra o momento de respiro e se afasta da repressão.
Além da cultura popular, o protagonismo do Recife na produção é pela ambientação da paisagem urbana da cidade.
Especialmente na área central, a trama se desenvolve costurada ao Recife dos anos 1970: boêmio, poético e com uma cultura viva.
As locações foram do emblemático Cinema São Luiz ao Parque 13 de Maio, passando pelo Ginásio Pernambucano e pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), espaços onde a vigilância ditatorial e a resistência através da pesquisa e da arte se fizeram presentes.
É também pela paisagem urbana do Recife que a produção faz menção ao esquecimento do apelo cultural da cidade. Enquanto o Carnaval e o Cinema São Luiz aparecem como ferramentas de resistência cultural e de exaltação do popular, o Banco de Sangue Hemato surge como referência às transformações urbanas e ao desaparecimento dos cinemas de rua.
A presença da capital pernambucana no mundo através da produção de Kleber Mendonça Filho se estendeu às premiações, com desfile do grupo Guerreiros do Passo em Cannes, em 2025, e o destaque dos bonecos gigantes do diretor pernambucano e de Wagner Moura no carnaval de Olinda.
Cinema pernambucano
“O Agente Secreto” alcançou grande repercussão nas salas de exibição e ultrapassou a marca de 2,5 milhões de ingressos vendidos no Brasil.
A trajetória do longa de Kleber Mendonça Filho também transformou Pernambuco em vitrine cultural para todo o mundo.
As salas de cinema, o frevo e as paisagens urbanas carregam a intensidade artística do estado e reafirmam o território como fértil para histórias sobre memória e identidade, agora reconhecidas pela maior premiação do cinema.
Outras produções ambientadas no estado ou dirigidas por cineastas pernambucanos já tiveram grande projeção internacional.
“Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), dirigido pelo recifense Marcelo Gomes, foi o representante brasileiro na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2007. Apesar de não ter conquistado a indicação oficial, o filme teve bom desempenho em premiações pelo país.
Em 2014, “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho, também correu atrás da indicação à categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Apesar de não ter ficado entre os finalistas, o longa teve aclamação pela crítica internacional e consolidou o pernambucano como um dos principais diretores do país.
Kleber teve destaque, ainda, na corrida por uma vaga que representava o Brasil no Oscar de 2017, com “Aquarius” (2016) – concorrendo com o recifense Gabriel Mascaro, com “Boi Neon (2015)” -, “Bacurau” (2019) na premiação de 2021.