23/09/26 – http://blogfolhadosertao.com.br – Por Jornal Nacional
A Academia Brasileira de Letras o recebeu em 2015, na cadeira número 32, que era de Ariano Suassuna.

Morreu nesta terça-feira (22), no Rio, aos 95 anos, o jornalista e escritor Zuenir Ventura. Em sete décadas de carreira, Zuenir ajudou a contar alguns dos principais episódios da história recente do Brasil.
Um mestre das palavras e do ofício que amava. Jornalista e autor premiado, imortal da Academia Brasileira de Letras. Tão importante e tão suave e generoso.
“A memória é de um jornalista, de um mestre, extremamente talentoso, atento. Atento às transformações do Brasil, do mundo, do Rio de Janeiro. E de um olhar generoso e amoroso para com os colegas, inclusive os mais jovens, que era o meu caso à época”, diz a jornalista Flávia Oliveira.
“Eu não queria ser jornalista. Eu queria ser professor só. E fui durante 40 anos, né, e depois me aposentei. Mas eu queria realmente é ler. Aliás, eu até hoje não gosto de escrever, eu gosto de ler. Ou então, gosto de ter escrito, mas de escrever eu não gosto”.
Mas o destino, o talento extraordinário ou os dois falaram mais forte no mineirinho que nasceu em Além Paraíba em 1931. Aos 11 anos, se mudou para Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, e ainda na juventude foi estudar na capital.
“Meu pai era pintor de parede, que aliás foi a minha primeira profissão”, contou Zuenir Ventura.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/t/6/keTJenROSeQvEfr1szPg/videoframe-7046166.png)
Zuenir Ventura, jornalista e escritor com sete décadas de carreira, morre aos 95 anos — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
Zuenir raspava as paredes que o pai pintava. Antes de chegar aos grandes jornais, revistas e livrarias de todo o país com suas obras, trabalhou como contínuo de banco e laboratório, entregador, faxineiro e balconista de bar, e professor primário. Ele dizia que toda essa experiência foi fundamental para a formação do homem e do jornalista Zuenir Ventura, que os amigos e colegas de profissão batizaram de “Mestre Zu”.
“Ele conseguiu unir, então, essas duas qualidades. A qualidade de um grande repórter com a qualidade de um dos maiores professores do jornalismo brasileiro”, afirma o jornalista Ancelmo Gois.
O início da carreira foi no arquivo do jornal “Tribuna da Imprensa”, de Carlos Lacerda.
“Eu, no arquivo, eu não pensava em ser jornalista. Até que um dia eu acabei descendo, fazendo um artigo, e o Carlos Lacerda gostou muito. E a partir daí eu fui pra redação, mas fui sem nunca pensar que acabaria sendo jornalista”, contou Zuenir Ventura.
A partir de 1960, conciliou as redações com as aulas como professor da Escola de Comunicação da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial. Zuenir Ventura passou pelas redações das revistas mais importantes do país de sua geração. Fez carreira também no “Jornal do Brasil” e estreou no jornal “O Globo” em 1999. Deixou claro que essa seria sua última mudança.
Na última coluna publicada, em fevereiro de 2022, ele refletiu sobre a pandemia, racismo e sobre o assassinato a pauladas do congolês Moïse Kabagambe em um quiosque na Barra, no Rio.
“Ele sempre reafirmou em todos os momentos os ideais democráticos. Conviver com meu pai no dia a dia, sempre devolveu a fé na humanidade”, afirma o jornalista Mauro Ventura, filho de Zuenir Ventura.
O primeiro livro publicado tornou-se de imediato uma obra indispensável à memória do país: “1968: O Ano que Não Terminou”. O livro narra as manifestações dos estudantes contra a ditadura militar e o que se seguiu ao Ato Institucional Número 5, que suspendeu os direitos políticos dos brasileiros. Ele ganhou o Prêmio Jabuti, o mais tradicional do país.
“Entre as originalidades de 68, está essa de que ele é um personagem. Ele tem vida. Você fala dele como se fosse uma pessoa, como se fosse um ser animado”, disse Zuenir Ventura.
Inclusive, o próprio Zuenir foi preso por três meses durante a ditadura militar. O livro inspirou a minissérie “Anos Rebeldes”, da TV Globo.
Em 1994, o relato dramático, também em livro, da chacina de Vigário Geral, que deixou 21 inocentes mortos. Ele frequentou a favela por dez meses para escrever o relato.
“E eu encontrei uma, uma comunidade… Quer dizer, as pessoas tristes, sofridas, mas sem raiva, sem, sabe, desejo de vingança. E procurando, em cada brecha da tristeza, um pouco de alegria, de felicidade”, disse Zuenir Ventura.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/m/K/zvtJa9RQqk2zsSBi490g/videoframe-7099966.png)