08/11/26 – http://blogfolhadosertao.com.br – Por Pedro Beija
Derrota de Flávio expõe divergências entre aliados de Bolsonaro, enquanto lideranças e especialistas discutem quem pode representar a direita até 2030
A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de outubro de 2026 abriu uma disputa sobre os rumos da direita brasileira, que pode se intensificar nos próximos quatro anos.
Enquanto lideranças políticas começam a discutir alternativas para a oposição, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) resistem à possibilidade de que o movimento perca o protagonismo conquistado desde 2018. O embate coloca em questão não apenas quem poderá representar esse campo político nas próximas eleições, mas também o que significa ser de direita no Brasil.
A discussão ocorre após uma eleição que revelou a força eleitoral do bolsonarismo, apesar da derrota presidencial. No segundo turno, Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21% dos válidos, contra 64.256.232 (51,79%) de Lula. No mesmo processo eleitoral, o Partido Liberal (PL) elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 121 parlamentares, e terá 28 dos 81 senadores a partir de fevereiro de 2027.
Mesmo diante desse resultado, divergências começam a aparecer dentro do campo da direita brasileira, liderada pelo bolsonarismo. Movimentações de governadores e dirigentes partidários recolocaram uma questão que acompanha a política nacional há anos: existe espaço para uma direita independente da família Bolsonaro?
Em entrevistas ao Jornal do Commercio, os cientistas políticos Adriano Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Felipe Ferreira Lima analisaram as dificuldades dessa reorganização. Para além das disputas entre lideranças, ambos identificam transformações no comportamento eleitoral e na maneira como os brasileiros compreendem sua própria identidade política.
A direita diante de uma escolha
“A direita foi sequestrada no debate e ela tem que fazer uma opção se ela ficará independente ou não.”
A avaliação de Adriano Oliveira resume o dilema que, segundo ele, se apresenta às lideranças conservadoras após a segunda derrota presidencial consecutiva do campo bolsonarista para o PT.
Para o pesquisador, o futuro da direita depende especialmente das decisões de governadores e dirigentes que mantiveram relações com o ex-presidente, mas possuem trajetórias e bases políticas próprias. Entre os nomes citados estão Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito governador de São Paulo, e Ratinho Júnior (PSD), que encerra seu mandato no Paraná.
Na avaliação de Adriano, o afastamento dessas lideranças poderia abrir espaço para uma representação de direita independente da família Bolsonaro. Entretanto, a força parlamentar do PL e a resistência dos integrantes mais próximos do ex-presidente podem dificultar uma separação.
“Se eles optarem por uma desbolsonarização, ou seja, não caminharem com o bolsonarismo, eles claramente vão permitir o enfraquecimento do bolsonarismo”, argumenta.
As primeiras movimentações depois do segundo turno ilustram essa tensão. Em 28 de outubro, três dias após a eleição, Tarcísio defendeu o reconhecimento do resultado das urnas, distanciando-se da reação de Flávio Bolsonaro, que contestou a derrota sem apresentar provas de fraude.
“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente”, declarou o governador de São Paulo.
Na mesma semana, Tarcísio admitiu, em entrevista ao Estadão, a possibilidade de disputar a Presidência em 2030, embora tenha afirmado que sua prioridade é o segundo mandato no governo paulista.
As declarações provocaram resistência entre aliados de Jair Bolsonaro, que já apontam que não reconhecem Tarcísio como líder da direita e consideram as declarações precipitadas.
Em Pernambuco, o deputado federal eleito Gilson Machado (Podemos), ex-ministro do Turismo e aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro, transmitiu um recado semelhante. Em vídeo publicado nas redes sociais em 31 de outubro, criticou políticos que tentavam assumir o protagonismo da direita depois da derrota de Flávio.
“Direita sem Bolsonaro é oportunismo. Direita sem Bolsonaro é filosofia”, declarou, antes de reforçar: “Não existe direita sem Jair Messias Bolsonaro”.
Outra posição foi apresentada por Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD. Em entrevista à Band, em 1º de novembro, o dirigente avaliou que a direita errou ao escolher Flávio como candidato presidencial e sustentou que uma candidatura mais próxima do centro poderia ter ampliado seu alcance eleitoral.
Kassab também criticou a contestação do resultado das urnas e admitiu que o PSD poderia apoiar o novo governo Lula, caso o presidente apresentasse uma agenda de centro, com diretrizes econômicas e reformas estruturais.
As manifestações revelam estratégias diferentes dentro do campo conservador: a preservação da liderança da família Bolsonaro, a construção de projetos próprios e a busca por acordos institucionais que não dependam de alinhamento permanente à polarização presidencial.
Como o bolsonarismo passou a representar a direita?
A direita brasileira nem sempre esteve organizada em torno de uma única liderança. Durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990, parte expressiva desse campo era representada pelo PFL, aliado do PSDB, enquanto conservadores e liberais ocupavam diferentes espaços partidários.
A chegada de Lula à Presidência, em 2003, alterou essa configuração. Partidos de centro e centro-direita passaram a integrar coalizões governistas, enquanto o antipetismo ganhou força na oposição, especialmente durante os governos Dilma Rousseff. O desgaste político associado à Operação Lava Jato, a expansão de movimentos conservadores e liberais e o crescimento das redes sociais integraram o cenário que favoreceu a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018.
“Quando o Lula é eleito, ele traz a direita para ele, porque o Brasil tem uma grande característica no seu sistema político, ou seja, o Brasil tem um Centrão, que é um conjunto de partidos que governam com qualquer um que estiver no poder”, analisa Adriano Oliveira.
Adriano, porém, faz uma ressalva: ser contrário a Lula não significa necessariamente ser de direita. O antilulismo também alcança pessoas de centro e antigos eleitores do petista que passaram a rejeitá-lo por insatisfação política.
Quem é de direita, mas não é bolsonarista?
A dificuldade de definir o que significa ser de direita também aparece nas pesquisas qualitativas realizadas pela equipe de Adriano Oliveira.
Segundo o cientista político, muitos entrevistados se classificam como de direita ou de esquerda, mas não conseguem explicar essas posições. Quando estabelecem associações, relacionam frequentemente a direita à família e ao empreendedorismo, enquanto a esquerda é vinculada à atuação do Estado.
“O eleitor pode até responder numa pesquisa quantitativa que ele é de direita ou que ele é de esquerda. Mas, se você perguntar para ele o que é ser de direita, como as nossas pesquisas qualitativas perguntam, ele não sabe dizer”, afirma.
O fenômeno foi abordado pela pesquisadora Maria Eduarda Oliveira no artigo “A ilusão do que é esquerda e direita”, publicado em outubro de 2025 no jornal O Povo. O trabalho apresenta depoimentos de eleitores que associam as classificações ideológicas à posição de governo ou oposição, ou simplesmente à preferência por determinadas lideranças.
Para Adriano, essa indefinição também aparece nos discursos dos candidatos. Ele observa que Flávio incorporou propostas sociais associadas ao lulismo durante a campanha e avalia que a dificuldade de construir uma identidade econômica distinta daquela defendida pelo PT leva parte da direita a concentrar suas propostas em pautas morais e de segurança pública.
A interpretação corresponde, entretanto, a uma concepção econômica específica da direita, que também reúne correntes conservadoras favoráveis à manutenção de programas sociais.
O voto de opinião e a busca por novas lideranças
Para o cientista político Felipe Ferreira Lima, a dificuldade de construir alternativas ao bolsonarismo também está relacionada às transformações no comportamento eleitoral.
O pesquisador identifica o enfraquecimento do chamado voto de opinião, tradicionalmente associado à escolha de candidatos por sua trajetória, capacidade de diálogo e posições individuais, diante da polarização e da influência de movimentos políticos e personalidades digitais.
“Eu acredito que nessa eleição, sobretudo, a gente teve alguns sinais de que existe um eleitorado, digamos que órfão de novas lideranças. Que eu poderia dizer que era de direita, centro-direita, mas também de centro-esquerda. Entretanto, a gente vê na direita isso de uma maneira mais latente”, afirma.
Felipe cita como exemplo a candidatura presidencial do escritor Augusto Cury (Avante), que cresceu nas pesquisas ao se apresentar como alternativa à polarização.
Em setembro, Cury chegou a 10% das intenções de voto na pesquisa Quaest, depois de registrar 2% na rodada anterior. O desempenho não se confirmou nas urnas: o escritor terminou o primeiro turno com 3.448.569 votos, equivalentes a 2,89% dos válidos. Quatro dias depois, declarou apoio a Flávio Bolsonaro.
Para Felipe, o crescimento momentâneo sinalizou a existência de eleitores receptivos a candidaturas fora da polarização, embora o episódio não permita determinar quantos deles se identificavam com a centro-direita.
Outra experiência analisada pelo cientista político é a do Partido Missão, que lançou Renan Santos à Presidência e conquistou sua primeira cadeira na Câmara dos Deputados.
Renan recebeu 2.675.887 votos (2,24%) no primeiro turno e buscou construir uma identidade independente do bolsonarismo. Felipe considera, porém, que o estilo de confronto adotado pelo dirigente, em especial durante a campanha presidencial, dificulta essa diferenciação.
“Ele demonstra beligerância também, às vezes um aspecto de extremismo. Não se descolando tanto do que já é o estilo bolsonarista”, avalia.
Desde o encerramento do primeiro turno, entretanto, Renan vem revisando publicamente sua estratégia política. O dirigente passou a admitir excessos no discurso adotado durante a campanha, incluindo a retórica de enfrentamento ao crime sintetizada no slogan “prendeu, matou”, e demonstrou maior disposição para dialogar com eleitores de outras orientações ideológicas.
A revisão também atingiu sua relação com o próprio eleitorado conservador. Em entrevistas e vídeos publicados depois de 4 de outubro, Renan criticou a prioridade atribuída às redes sociais e às disputas culturais por parlamentares eleitos pelo PL, como Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano.
A crítica passou a integrar um diagnóstico mais amplo do dirigente: na avaliação dele, a direita brasileira estaria privilegiando a identificação com personalidades e o entretenimento político em vez da discussão de propostas para o país.
Depois da vitória de Lula, Renan responsabilizou a postura da família Bolsonaro e de seus apoiadores pela derrota de Flávio. Em vídeo publicado nas redes sociais em 25 de outubro, voltou a criticar a estratégia de comunicação do movimento e defendeu a construção de um projeto político com prioridades econômicas e administrativas.
Para sustentar essa mudança, recuperou a trajetória do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que derrotou Lula no primeiro turno das eleições presidenciais de 1994 e 1998.
“Ele não se definia como direita e não ficava pisando em ninguém”, afirmou Renan, ao apresentar FHC como exemplo de liderança que, segundo sua avaliação, conseguiu derrotar o PT ao priorizar reformas econômicas e a resolução de problemas concretos.
Em entrevista à TMC, em 28 de outubro, Renan foi além e passou a questionar sua vinculação à direita brasileira, criticando a fidelidade dos eleitores às lideranças bolsonaristas.
“Eu estou saindo fora da direita. O campo da direita é viciado em idolatrar seus ídolos”, declarou.
A trajetória recente de Renan ilustra uma das dificuldades apontadas por Felipe Ferreira Lima: construir uma alternativa ao bolsonarismo exige não apenas apresentar propostas distintas, mas encontrar espaço entre eleitores cuja identificação política está fortemente vinculada às lideranças e aos conflitos nacionais.
O Congresso como espaço de disputa
Os rumos da direita também serão definidos pelas articulações no Congresso Nacional, especialmente após o crescimento das bancadas conservadoras.
Felipe Ferreira Lima identifica sinais de distanciamento entre determinadas lideranças e o núcleo bolsonarista, mas considera cedo para apontar uma ruptura. Um dos exemplos é a postura do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que reconheceu a vitória de Lula mesmo diante da contestação do resultado por Flávio.
“O Valdemar é muito dos números, é muito pragmático para isso. Ele próprio reconheceu o resultado eleitoral já para se livrar da estratégia bolsonarista, que elegeu uma grande bancada”, avalia o cientista político.
Para Felipe, a formação das Mesas Diretoras, as negociações partidárias e o comportamento dos novos parlamentares ajudarão a revelar se esses movimentos representam mudanças duradouras.
“A gente tem um Congresso também de influencers, que não dependem de partido político muitas vezes. Na verdade, os partidos se utilizam deles para ter mais vagas”, observa.
O pesquisador questiona se esses parlamentares atuarão de maneira independente ou formarão blocos alinhados a movimentos políticos. No Senado, as articulações envolvendo Davi Alcolumbre (União Brasil), Rogério Marinho (PL) e Tereza Cristina (PP) também colocam em evidência as diferentes estratégias de negociação e oposição ao governo Lula.
Direita também enfrenta dificuldades no exterior
O debate sobre os rumos da direita ocorre em meio a reveses eleitorais e crises políticas de governos conservadores em diferentes países.
Nos Estados Unidos, os democratas conquistaram a Câmara e o Senado nas eleições legislativas de 3 de novembro, impondo uma dura derrota ao Partido Republicano do presidente Donald Trump.
Em Israel, as eleições de 27 de outubro deixaram o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sem maioria parlamentar. O oposicionista Gadi Eisenkot, de centro-direita, recebeu a recomendação de 67 deputados para formar um governo, inclusive de partidos árabes.
Na Sérvia, uma coalizão liderada pelo movimento estudantil derrotou o partido do presidente Aleksandar Vucic – apoiado por Donald Trump – nas eleições parlamentares de 25 de outubro, após anos de protestos contra o governo.
Na América Latina, pesquisas recentes registraram desgaste de presidentes de direita. No Chile, levantamentos apontam que a rejeição ao governo José Antonio Kast ultrapassa os 60%. Na Argentina, a desaprovação a Javier Milei chega a 56%, em meio às dificuldades econômicas.
No Paraguai, a crise política chegou à abertura de um processo de julgamento político contra Santiago Peña, após um escândalo bancário. O presidente apresentou sua renúncia em 5 de novembro, recusada pelo Congresso.
Para Felipe Ferreira Lima, os movimentos internacionais podem influenciar as estratégias dos dirigentes brasileiros, mas não provocam efeitos eleitorais automáticos.
“Os caciques dos partidos pensam também olhando o movimento da política nacional e internacionalmente”, afirma.
O futuro da direita sem Lula na disputa presidencial
A eleição presidencial de 2030 terá uma diferença importante em relação às disputas anteriores: pelas atuais regras constitucionais, Lula não poderá concorrer novamente após o quarto mandato.
Para Adriano Oliveira, a ausência do presidente como candidato poderá modificar a dinâmica da polarização, especialmente entre eleitores que votaram em Bolsonaro ou Flávio principalmente pela rejeição ao petista.
Na hipótese apresentada pelo pesquisador, um novo candidato apoiado por Lula poderia atrair parte dos eleitores que hoje rejeitam o presidente, enquanto a ausência dos principais protagonistas da polarização poderia estimular a busca por alternativas.
“A saída de Lula enfraquece o bolsonarismo porque o eleitor vê uma outra alternativa”, sustenta.
Adriano ressalta, entretanto, que se trata de uma hipótese, cuja confirmação dependerá das escolhas dos partidos e do comportamento dos eleitores nos próximos quatro anos.
Antes disso, as eleições municipais de 2028 e a atuação do novo Congresso poderão oferecer sinais sobre a capacidade da direita de construir projetos independentes da família Bolsonaro.
Após perder a Presidência, mas ampliar sua representação parlamentar, a direita brasileira inicia uma disputa que envolve não apenas suas futuras lideranças, mas a própria definição de sua identidade política.
