29/10/26 – http://blogfolhadosertao.com.br – Por José Neves Cabral*
A presença maciça de idosos nas urnas em 2026, a maioria para votar em Lula, trouxe à tona uma questão sobre o que ocorre em nossa realidade. Idosos acima de 70 a 80 anos não nasceram no mundo digitalizado.
Muitos têm até dificuldade em fazer uma ligação telefônica com o celular, imaginem utilizá-lo como ferramenta para obter informações. Seus veículos preferidos ainda são o rádio e a tevê, uma vez que os jornais impressos praticamente desapareceram.
Rádio e tevê são veículos que fazem um jornalismo mais conservador, porém são mais vacinados contra notícias fakes e mentirosas, devido ao filtro natural dos editores. Por mais que um comunicador mais favorável à ideologia A ou B tente influenciar o ouvinte ou telespectador, fica sempre aquele espaço para o questionamento.
Já as redes sociais, usadas horizontalmente entre familiares e amigos, passam a ganhar um caráter mais vertical a partir dos influencers, usuários que se destacam por memes e vídeos “engraçadinhos”, uma porta fácil para, após ganhar a simpatia do público-alvo, atrai-lo para seu campo partidário.
E, a partir de um determinado momento, essa comunicação deixa de ser horizontal e passa a ser vertical. Então, surgem os Nicolas, Campopianos e Pavanatos. De tão seguros de sua notoriedade, passam a compartilhar suas visões equivocadas, tendenciosas, mentirosas, preconceituosas.
O exemplo, graças a Deus, trágico, de Nicolas praticamente dizimou a campanha de Flávio Bolsonaro no Nordeste. Ao tentar forjar um vídeo expondo a miséria da Região, ele, por burrice e ignorância, escolheu uma das cidades de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais altos – 0.716 da Bahia. Luís Eduardo Magalhães é um dos municípios de maior peso no Agro baiano.
O erro foi tão crasso que vai levar Nicolas a sofrer gozações pelo resto de sua provavelmente curta carreira política, pois gente assim, acredito, não se sustenta por tanto tempo.
Usei esse exemplo para falar exatamente dessa distância entre o digital e o real. Pouco afeito ao mundo digital, o público sênior baseou-se no mundo real para votar, pois viu o risco que corria com a candidatura Bolsonaro, falando de um “tesouraço”. “Ninguém pode mexer no cuscuz com ovo dos velhinhos”, me disse um garçom de um restaurante de Boa Viagem, que pegou um ônibus no domingo às 5h da manhã para ir votar na sua terra natal, Umbuzeiro, na Paraíba.
* José Neves Cabral é jornalista