Amigos e familiares se despedem de Jomard Muniz de Britto, ícone do tropicalismo em Pernambuco

13/10/26 –  http://blogfolhadosertao.com.br  – Por Diário de Pernambuco

Poeta, filósofo e cineasta morreu aos 89 anos; velório acontece na capela do Cemitério de Santo Amaro, no Recife, e sepultamento está marcado para as 16h desta segunda-feira (12)

Ao longo do dia, amigos, familiares e personalidades da cultura pernambucana prestaram homenagens a Jomard Muniz de Brito/Cortesia

Ao longo do dia, amigos, familiares e personalidades da cultura pernambucana prestaram homenagens a Jomard Muniz de Brito (Cortesia)

Amigos e familiares se despedem, nesta segunda-feira (12), do poeta, filósofo e cineasta Jomard Muniz de Britto, na capela do Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. O artista faleceu nesta madrugada, aos 89 anos, após passar por um período de internação hospitalar.

Ao longo do dia, diversas personalidades da cultura pernambucana passaram pelo local para dar um último adeus ao artista. Foram os casos do produtor João Vieira Jr., que leu o manifesto tropicalista, movimento do qual Jomard foi o principal representante pernambucano, e do cineasta Kleber Mendonça Filho.

O diretor de “O Agente Secreto” comentou na ocasião que as impressões do Jomard estão em todo o cinema pernambucano, passando por títulos como “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, “Retratos Fantasmas”, do próprio Kleber, e até “A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias, premiado no Festival do Rio recentemente. De acordo com o realizador, em 35 anos de amizade, Jomard nunca deixou de surpreedê-lo.

“Ele era uma figura completamente extrovertida, a animação em pessoa. Como legado, além da obra, deixa sua luta em defesa pela democracia”, destaca o advogado Rodrigo Galindo, sobrinho de Jomard.

Já o jornalista, produtor cultural e documentarista Anselmo Alves coloca o artista como uma de suas grandes referências estéticas.“O maior transgressor com conteúdo da minha geração. Ele saía pela rua com suas folhas de A4 e distribuía seus famosos atentados poéticos. Eram manifestos que tinham conteúdo”, frisa.

Muitos dos “atentados” de Jomard chegaram às mãos do médico e poeta Abel Menezes, amigo do artista, que o descreve como um “performático ambulante”. Natural de Caruaru, no Agreste, Abel conheceu Jomard quando se mudou para o Recife, nos anos 1960, no contexto da Ditadura Militar.

“Ele já era uma referência para a gente. Já tinha trabalhado com nomes como Glauber Rocha e Paulo Freire”, lembra.

Dentre as características do amigo, Abel ressalta a generosidade como a mais notável. “O apoio dele foi fundamental para que o lançasse meu primeiro livro, Delírica Dança, em 1988. A gente estava sempre junto nas sessões de cinema ou nos bares”, comenta.

Por sua vez, a poeta Maria Alice Amorim, comenta a maneira como o artista costumava se relacionar com as pessoas nas ruas do Recife. “Jomard conversava com camelôs, comerciantes e trabalhadores, chamando-os pelo nome e sem estabelecer distinções de classe. Tinha muita sensibilidade e admiração pela classe trabalhadora”, pontua.

Em nota enviada ao Diario, o presidente da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, Marcelo Canuto, também destacou a importância do amigo. “Somos privilegiados por termos convivido com uma figura da dimensão de Jomard, que transitou por diferentes linguagens artísticas e contribuiu para renovar o debate cultural em Pernambuco”, disse o gestor.

“Nem a repressão nem a censura silenciaram sua capacidade de questionar as estruturas de poder e os modelos consagrados de pensamento e criação. Mesmo ao ocupar cargos públicos, como a presidência da Fundação de Cultura do Recife, manteve-se como pensador, artista e ativista presente e atuante na cena cultural”, continuou ele.

Falecimento

Jomard Muniz de Britto, ícone do tropicalismo em Pernambuco - Rafael Martins/DP
Jomard Muniz de Britto, ícone do tropicalismo em Pernambuco (crédito: Rafael Martins/DP)

De acordo com o sobrinho Rodrigo Galindo, Jomard foi levado para o Hospital Unimed da Rua José de Alencar, no Centro do Recife, neste sábado (10), após apresentar febre alta e mal-estar. De lá, o artista foi conduzido para a UTI da Unimed de Boa Viagem, na Zona Sul, onde faleceu por volta das 3h30 desta segunda-feira (12), após piora gradual de sua respiração. Jomard tinha início de Parkinson e um quadro de demência.

O sepultamento está marcado para as 16h, no Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. O artista não deixa filhos.

Sobre Jomard Muniz de Britto

Nascido em 8 de abril de 1937, no bairro de São José, no Recife, Jomard Muniz de Britto construiu uma trajetória que reuniu filosofia, literatura, cinema e música. Formado em Filosofia pela então Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estudou estética com Ariano Suassuna e integrou a equipe do Serviço de Extensão da universidade a convite do educador Paulo Freire.

Durante a ditadura militar, foi preso em 1964 e levado ao Forte das Cinco Pontas, no Recife, onde dividiu cela com o político Gregório Bezerra. A perseguição política também afetou sua carreira acadêmica: a partir de 1969, ele foi impedido de lecionar na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Jomard é considerado um dos precursores do tropicalismo em Pernambuco. Em 1968, assinou, ao lado do músico Aristides Guimarães e do jornalista Celso Marconi, um manifesto ligado ao movimento, que propunha novas formas de expressão artística e questionava padrões culturais estabelecidos.

Nas décadas de 1970 e 1980, desenvolveu parte importante de sua produção cinematográfica em Super-8. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão O Palhaço Degolado (1976), em que aparece caracterizado como palhaço e provoca referências consagradas da cultura regional, e Inventário de um Feudalismo Cultural (1978).

Sua atuação também se estendeu à literatura e às intervenções poéticas nas ruas. Em 2017, sua trajetória foi registrada na biografia Jomard Muniz de Britto: Professor em transe, escrita pela jornalista Fabiana Moraes e pelo historiador Aristides Oliveira.

Em novembro de 2025, filmes do artista foram remasterizados e exibidos na 16ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, contribuindo para a preservação e a circulação de sua obra.

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