Especial de Domingo: Os 40 anos da morte de Pedro Jorge

06/03/22

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Por Ítalo Rocha Leitão *

( Atualizado em: 02/03/2022 23:12)

 

Eram 18h40m do dia 3 de março de 1982. Um homem saía da padaria em direção ao carro. Carregava nas mãos um pacote de pão e um saco de leite. Faltavam poucos minutos para mais uma ceia ao lado da esposa e das duas filhas pequenas. De repente, um pistoleiro se aproximou e lhe acertou três tiros à queima-roupa. Houve correria e pânico no local.

O homem que morreu ali na frente da padaria Panjá, no bairro de Jardim Atlântico, em Olinda, se chamava Pedro Jorge de Melo e Silva. Tinha 35 anos e era procurador da República. Casado com Maria das Graças Viégas e Silva, o casal tinha duas filhas: Roberta e Marisa, 4 e 3 anos.

Aquela quarta-feira tinha sido mais um dia de trabalho para  Pedro Jorge de Melo e Silva, na Procuradoria da República, no Recife.  Ele era responsável pelo inquérito que apurou o desvio de dinheiro da agência do Banco do Brasil, em Floresta, no Sertão pernambucano. O caso ficou conhecido como o Escândalo da Mandioca. Um grupo de proprietários de terras da região era acusado de desviar milhões de reais para uma fictícia plantação de mandioca – daí a origem do nome dado ao escândalo. Eles agiram em conluio com o então gerente da agência. Entre os que foram denunciados pelo procurador Pedro Jorge por desvio de recursos públicos estava  José Ferreira dos Anjos, o “Major Ferreira”,  da Polícia Militar de Pernambuco. De acordo com as investigações da Polícia Federal, foi por ter sido incluído entre os denunciados que o Major Ferreira planejou e ordenou o assassinato do procurador. Ele e outros cinco acusados foram julgados e condenados.

O júri popular durou 6 dias e aconteceu em outubro de 1983, no Tribunal de Justiça de Pernambuco, na área central do Recife. O julgamento foi presidido pelo juiz federal Adaucto José de Melo. Atuaram na acusação o procurador da República Hélio Maldonado e o advogado criminalista Gilberto Marques. Na defesa, os advogados criminalistas Juarez Vieira da Cunha e Mírcio Ferreira. O Major Ferreira, expulso da Polícia Militar, foi o único a fugir da prisão, mas anos depois foi recapturado e também cumpriu a pena. Morreu de enfarte em 2018.

O homem que desferiu os tiros no procurador Pedro Jorge foi o pistoleiro Elias Nunes Nogueira. Ao ser preso, confessou o crime, deu detalhes e disse que tinha sido contratado pelo Major Ferreira. Entre os outros condenados, estavam um topógrafo, um servidor público e dois policiais, um da Civil e outro da PM. Eles também perderam suas funções.

Pedro Jorge de Melo e Silva era alagoano de Maceió. Ainda muito jovem, migrou pro Recife para estudar. Foi seminarista e depois decidiu pela carreira acadêmica, tendo sido o primeiro lugar no vestibular de Direito da UFPE. Aos 29 anos, foi aprovado com destaque num concurso público para uma vaga de procurador da República.

Como procurador, Pedro Jorge teve sua atuação marcada pela integridade e pelo zelo na defesa dos bens públicos.  Deixou como legado um exemplo de retidão que até hoje é seguido e admirado pelos seus colegas do Ministério Público Federal, em Pernambuco.

* Ítalo Rocha Leitão é jornalista

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