Morre D. Pedro Casaldáliga, a pedra no sapato do autoritarismo brasileiro

08/08/20
Por  LEONARDO SAKAMOTO/blogfolhadosertao.com
  • Pedro Calsadáliga, expoente da Teologia da Libertacão, é considerado um dos mais importantes defensores dos direitos humanos do país.
  • Foi um dos principais defensores dos povos indígenas e ribeirinhos e dos camponeses e trabalhadores rurais da Amazônia desde a ditadura militar.
  • Casaldáliga foi responsável por algumas das primeiras denúncias por trabalho escravo contemporâneo que ganharam o mundo no início da década de 1970.
  • Aos 84 anos, teve que deixar sua casa pelas ameaças de morte sofridas em decorrência do governo ter retirado invasores da terra indígena Marãiwatsédé
Dom Pedro Casaldáliga, bispo católico radicado no Brasil desde 1968 - Jorge Araujo/Folhapress
Dom Pedro Casaldáliga, bispo católico radicado no Brasil desde 1968 . Imagem: Jorge Araujo/Folhapress

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e um dos maiores defensores dos direitos humanos do país, morreu aos 92 anos, às 9h40 deste sábado (8), em Batatais (SP), onde havia sido removido para tratamento médico devido a problemas respiratórios.

A informação foi comunicada pela Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos). Ele havia testado negativo para covid-19.

Num ano em que o Brasil já ficou 100 mil vezes menor por conta de uma doença estúpida, a morte de Pedro consegue deixar um vazio profundo. Ele não era apenas um defensor da vida, mas a representação viva da resistência ao autoritarismo.

Nascido na Catalunha como Pere Casaldàliga, chegou ao Brasil em 1968. Desde então, subvertendo o Evangelho de Mateus, capítulo 16, versículo 18, Pedro não foi apenas a pedra em torno do qual edificou-se uma igreja na Amazônia, mas a pedra no caminho dos planos da ditadura e de seus sócios na iniciativa privada de passar por cima dos direitos e da vida de camponeses, ribeirinhos, indígenas, quilombolas.

Foi dele a primeira denúncia por trabalho escravo contemporâneo que ganhou o mundo no início da década de 1970. Essa mão de obra foi largamente utilizada em empreendimentos agropecuários na ocupação da região, com a cumplicidade dos militares.

Por conta de sua atuação contra a ditadura e a violência de grileiros, madeireiros, garimpeiros e grandes produtores rurais passou boa parte da vida marcado para morrer. Foi alvo de processos de expulsão do país. Poeta e escritor, tornou-se uma das principais vítimas da censura baixada pelos verde-oliva durante os anos de chumbo.

“Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos”, escreveu.

Para entender o que é a longevidade da luta de Pedro: aos 84 anos e doente, teve que deixar sua casa em São Félix do Araguaia por conta das ameaças surgidas em decorrência do governo brasileiro, finalmente, ter começado a retirar os invasores da terra indígena Marãiwatsédé, Nordeste de Mato Grosso – ação pelo qual sempre lutou.

Governos nunca foram competentes para garantir os direitos dos povos indígenas. Agora, temos um que é abertamente contra a demarcação de novos territórios. E Pedro, mesmo enfrentando um Parkinson avançado, manteve-se na trincheira contra a necropolítica.

“Ele conseguiu, pela denúncia intrépida e pelo testemunho arriscado, pela profecia inconveniente, pela poesia cortante, pela mística e pela espiritualidade que encarnava, contagiar a muitos e muitas. Contagiar a nós da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dos movimentos sociais, lutadores por um outro mundo justo, fraterno e possível”, diz frei Xavier Plassat, da CPT. Pedro ajudou a criar ambas as instituições, vinculadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Foi um dos expoentes da Teologia da Libertação – linha progressista da igreja católica que acredita que a alma só será livre se o corpo também for, que tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante na periferia do mundo. Na prática, esses religiosos realizam a fé que muitos não querem ver materializada a partir do livro sagrado do cristianismo.

Para traduzir o que ela significa, nada como uma citação atribuída a outro gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que também lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista”.

Pedro não ensinou que solidariedade significa uma forma distorcida de caridade, como uma política de distribuição de sobras – o que consola mais a alma dos ricos do que o corpo dos pobres. Mas que solidariedade passa por reconhecer no outro e na outra seus semelhantes e caminhar junto a eles. Ou seja, não é doar migalhas, mas compartilhar o pão, produzido com diálogo e respeito. “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”, assumiu Pedro como lema de vida. Tão simples, tão poderoso.

Pedro nunca voltou para a Espanha. Até porque ele era brasileiro. Nasceu por engano em outro continente.

Pessoas assim não morrem, não podem morrer. Não tenho a mesma fé que Pedro, mas não tenho dúvida que ele atingiu a imortalidade.

Seu corpo será velado, a partir das 15 horas deste sábado, na capela do Claretiano, em Batatais. E, antes de ser velado e sepultado em São Félix do Araguaia, também passará pelo município de Ribeirão Cascalheira (MT).

A arte dramática perde Chica Xavier

08/08/20

G1/blogfolhadosertao.com

Chica Xavier – atriz consagrada , tinha 88 anos de idade

A atriz Chica Xavier, conhecida por papéis marcantes em novelas como “Sinhá Moça” e “Renascer”, morreu na madrugada deste sábado (8) aos 88 anos, vítima de câncer de pulmão. Ela estava internada no Hospital Vitória, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.

Nascida em Salvador em 22 de janeiro de 1392, Francisca Xavier Queiroz de Jesus mudou-se para o Rio em 1953, aos 21 anos e se consagrou como atriz de teatro, TV e cinema, ao longo de uma carreira de mais de seis décadas. Destacou-se como uma das maiores referências da representatividade negra na arte brasileira.

Em 2010, recebeu o Troféu Palmares, entregue pelo extinto Ministério da Cultura, pelo trabalho de preservação e incentivo à cultura afro-brasileira.

“Uma precursora, símbolo de gerações de atrizes e atores negros, de representatividade, que trazia em cada cena ou fala traços latentes de baianidade. Nunca negou a origem”, disse a TV Globo em comunicado.

Nos palcos, Chica Xavier esteve na montagem de 1956 de “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes. Atuou também em novelas como “Dancin’ Days” (1978), “Pátria minha” (1994), “Cara & Coroa” (1995), “O rei do gado” (1996) e “Força de um desejo” (1999), além da minissérie “Tenda dos milagres” (1985). Seu último trabalho na TV foi “Cheias de charme” (2012).

“Obrigado, Dona Chica, por inspirar e se doar como se doou. Obrigado pelo amor e talento que nos ofereceu”, escreveu o ator Lázaro Ramos em uma rede social. A atriz Taís Araújo comentou: “O céu recebe hoje a nobreza. Entre nós vivia uma nobre, uma rainha elegante, sábia, afetuosa, agregadora, ombro e colo para muitos. Salve a rainha Chica Xavier!”.

Em 2013, Chica Xavier foi tema da biografia “Chica Xavier: Mãe do Brasil”, escrita por Teresa Montero.

A atriz deixa o marido, o também ator Clementino Kelé, com quem foi casada por 64 anos. Eles tiveram três filhos, Christina, Izabela e Clementino Junior, e três netos, Ernesto Junior, Luana Xavier e Oranyan.

A matéria completa está no G1

Cheques para Michelle põem Bolsonaro em contradição

08/08/20
Por Folha de São Paulo/blogfolhadosertao.com

A quebra do sigilo bancário do policial militar aposentado Fabrício Queiroz revela novos repasses do amigo do presidente Jair Bolsonaro à primeira-dama Michelle Bolsonaro, de acordo com reportagem publicada ontem pela revista Crusoé. Extratos põem em dúvida a justificativa sobre empréstimos apresentada por Bolsonaro.

Segundo a revista, os cheques que caíram na conta dela somam R$ 72 mil. A Folha confirmou as informações da publicação e apurou que o repasse foi ainda maior. Além dos 21 cheques de Queiroz depositados para Michelle de 2011 a 2016, sua mulher, Márcia Aguiar, repassou à primeira-dama outros R$ 17 mil em 2011.

No total, R$ 89 mil, em 27 movimentações bancárias. Segundo o Ministério Público do Rio, Queiroz operou esquema de “rachadinhas” no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Procurado, o Planalto não se manifestou.

ótima notícia: empresas privadas vão montar fábrica para produzir vacina contra o coronavírus no Brasil

08/08/20
por Douglas Hacknen/JC/blogfolhaosertao.com

 

As doses serão distribuídas gratuitamente para todo o território nacional

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEMBrasil já tem uma rede de cobertura efetiva por causa de experiências com outras vacinas. Imunização contra a covid pode começar ainda neste ano. – FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

Oito empresas privadas se uniram para levantar fundos e ajudar o Brasil na produção das doses da vacina contra o novo coronavírus (covid-19). Custando R$ 100 milhões, as instalações terão capacidade de produzir até 30 milhões de doses mensais. As companhias irão equipar e financiar a infraestrutura necessária à produção da vacina contra a covid-19 e posteriormente doar à Fiocruz sem a utilização de dinheiro público. Inicialmente será construído um laboratório de controle de qualidade, para a realização dos testes.

Doado pela Ambev, Americanas, Itaú Unibanco, Stone, Instituto Votorantim, Fundação Lemann, Fundação Brava e a Behring Family Foundation, o dinheiro vai ser usado desde a primeira fase de incorporação do imunizante pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos /Fiocruz), no Rio de Janeiro, que consiste no recebimento de 100 milhões de doses do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) até o processamento final (formulação, envase, rotulagem e embalagem).

A vacina que será produzida na unidade está sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Estados Unidos, junto ao laboratório farmacêutico britânico AstraZeneca. O imunizante da instituição norte-americana é o mais avançado, até o momento. O projeto se encontra na fase III de testes no Brasil e outros países, como África do Sul, Reino Unido e EUA. A expectativa é de que esta vacina tenha a submissão do seu dossiê de registro entregue à agência regulatória nacional antes do final de 2020.

As doses produzidas serão doadas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, para imunização da população de acordo com a sua estratégia.

Além da vacina

O grupo ainda anunciou que investirá em melhorias no parque fabril de Bio-Manguinhos/Fiocruz, assim como na aquisição dos equipamentos necessários à absorção total da tecnologia para produção do IFA. A previsão é que toda a infraestrutura esteja pronta até o começo de 2021.

Legado

Quando concluídos todos os investimentos, Bio-Manguinhos/Fiocruz terá também capacidade para produzir outras vacinas no futuro, incluindo outros tipos contra a covid-19 que sejam aprovados. A unidade produtora pode acelerar a solução para doenças futuras.

Acompanhamento

A Ambev será corresponsável, junto com a Fiocruz, pela gestão e execução do projeto, sob supervisão técnica de Bio-Manguinhos/Fiocruz. Um comitê composto por todas as empresas e fundações será formado para acompanhar o andamento das obras e aquisições dos equipamentos.

Investimento em São Paulo

Parte dos integrantes da coalizão também apoiará a construção de uma fábrica similar no Instituto Butantan, em São Paulo. As duas iniciativas serão as primeiras fábricas capazes de produzir este tipo de vacina na América do Sul.

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