Francisco Julião e o MST: raízes históricas de uma mesma luta pela terra

03/01/26   –  http://blogfolhdosertao.com.br 

Alexandre Acioli*

A trajetória das lutas agrárias no Brasil guarda pontes que atravessam gerações. Entre elas está a relação entre o pensamento do advogado pernambucano e ex-deputado Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas nos anos 1950 e 1960, e as práticas contemporâneas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Embora separados por décadas e contextos políticos distintos, os dois movimentos partilham a mesma aspiração central: democratizar o acesso à terra e fortalecer o protagonismo do trabalhador rural.

Francisco Julião (1915-1999) – que garantia não ser o fundador das Ligas Camponesas, mas a sua principal liderança – defendia que o camponês precisava romper com a imagem de submissão e adquirir consciência política para enfrentar a histórica concentração fundiária brasileira. Para ele, a terra era um direito social, não um privilégio de poucos; e a reforma agrária deveria ser ampla e urgente.

Inicialmente, as Ligas Camponesas, que surgiram em 1º de janeiro de 1955, no Engenho Galileia (Vitória de Santo Antão – PE), tinham como fim o apoio mútuo (Auxílio aos camponeses com despesas funerárias, assistência médica, jurídica e educacional). Mas depois transformaram-se em espaços de organização política, de alfabetização, mobilização social e criação de cooperativas.

Essa mesma visão ecoa, atualmente, nas ações do MST. Criado em 1984, em pleno período de redemocratização do país, o movimento adotou estratégias mais diversas e adaptadas a um cenário legal diferente – que reconhece o direito à organização social, embora ainda haja tensões com a questão fundiária. A ocupação de terras improdutivas, a formação política das famílias assentadas, as escolas itinerantes e os projetos produtivos coletivos reforçam a ideia de que a mudança no campo exige mobilização permanente.

Mas a comparação entre as Ligas Camponesas e o MST revela tanto semelhanças quanto diferenças. Enquanto Francisco Julião enfrentou repressão crescente e terminou exilado após o golpe militar de 1964, o MST atua num ambiente em que os movimentos sociais têm respaldo constitucional e apoio dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT).

Porém, em contextos políticos e sociais distintos, ambos convergem na defesa da autonomia e fortalecimento do protagonismo dos trabalhadores rurais, na democratização do acesso à terra e na compreensão de que a transformação do campo depende da força coletiva.

Mais de meio século após a desarticulação e extinção das Ligas Camponesas, o legado de Francisco Julião permanece como referência política e simbólica. O seu pensamento continua a inspirar novas formas de resistência e organização, reafirmando que a luta pela terra no Brasil é longa, contínua e profundamente marcada pela história das gerações que se sucedem.

(*) Sociólogo, Jornalista e Produtor Cultural

aciolijornalista@gmail.com

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